O MALDITO BLOQUEIO ATMOSFÉRICO, O MALDITO H1N1 E A MAL FALADA CURITIBA

0 h Bloqueio Atmosfério

Sinto saudades de Curitiba. Exatamente. A cidade mais mal falada no mundo pelos seus próprios moradores, poderia ser ainda pior. Para isso, bastava que um tal “bloqueio atmosférico” fizesse com que os curitibanos tivessem com o sol uma relação longínqua, como com aquele vizinho que mora “de muro”, com o qual nunca sequer se trocou um bom dia.

Segundo uma pesquisa do Departamento de Curiosidades e Bizarrices da Organização Mundial da Saúde, a pandemia da Gripe do Porco, ainda que se torne tão letal quanto os alarmistas dizem, e se alastre tanto quanto querem os fabricantes de álcool em gel, e sabonete líquido antisséptico, não deverá fazer um número significativo de vítimas na Capital Paranaense.

Indagado o cientista amador Leumas Odracir, que revela os dados, Curitiba não é considerada uma área de alto risco, em função do próprio comportamento do povo. Segundo ele, não é pela questão de higiene, mas sim relação comportamental de massa (aqui ele abre um parênteses para registrar que a dor de cabeça de Massa na realidade não tem qualquer relação com a gripe do porco, mas foi causada por Rubens Barrichelo, que anda perdendo as molas pelo caminho correndo atrás do Inglês – Eu disse inglês e não alemão).

Leumas diz que na realidade, por mais que seja alarmante a situação atual da Nova Gripe, os curitibanos estão sob um risco menor em função de que a população não tem hábitos que facilitariam a disseminação do vírus.

Exemplo disso, é o fato do povo curitibano não ter o hábito de dar a mão ao cumprimentar outro curitibano. É sabido que essa é a forma mais corriqueira de contaminação com o vírus H1N1. E se assim é em relação ao aperto de mão, muito mais em relação ao abraço. Se curitibano não sabe cumprimentar, que diríamos de abraçar? Também em relação ao beijo a situação é favorável à sobrevivência dos curitibanos, pois segundo a pesquisa, quem não abraça, não dá a mão, e não é afeito a contatos, tem muito mais dificuldade de beijar alguém.

0 H1N1 FluVirus

Para assegurar a procedência dos dados da pesquisa, Leumas menciona a situação no Rio Grande do Sul. Segundo ele, o altíssimo número de casos registrados no estado sulino, tem fundamento exatamente no fato de que, segundo informações, os gaúchos são muito dados e receptivos, o que os coloca no lado passivo nar relação com o vírus.

Alguns pesquisadores gaúchos são contrários à teoria de Leumas, e alegam que o alto número de casos da Nova Gripe no estado, ocorre em função da fronteira com a Argentina.

Mas Leumas se defende e diz que isso não procede, pois na realidade, é histórico que a Argentina sempre manda coisas que não prestam para o Brasil, como alguns vinhos, carne sem gordura, frente fria e agora o H1N1. Tanto é verdade, que a última frente fria vinda da terra de Los Hermanos, chegou a afetar o clima até no nordeste do Brasil. Assim também é em relação ao H1N1, que já chegou no paraíso tropical brasileiro.

Em falar em tropical, que saudades de Curitiba, daquela que o inverno era bem frio, mas de pouca chuva. Saudades daquela Curitiba que a única coisa que fazia uma professora devolver um aluno para a casa, era uma cabeça cheia de piolhos. Sim. tenho saudades daquela Curitiba sem medo de Gripe A, ou “B”, ou “C”, uma Curitiba que nem precisava de metrô, e mesmo assim recebeu jogos da Copa do Mundo de 1950.

Saudades daquela Curitiba.

0 h Vizinha

Aliás, saudades da minha vizinha.

Não. Nunca falei com ela, mas eu adorava ver a parte das costas dos seus cabelos quando ela passava na frente da minha casa.

Quanto ao bloqueio atmosférico?

Eu como bom curitibano, tenho os meus próprios bloqueios, e se ele passar por mim eu não o cumprimento. Bloqueio ele no orkut, no MSN e em qualquer outro site de relacionamento.

A atmosfera curitibana é mesmo assim…

bloqueia.

 

0 h Curitiba Rua XV

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“SARNEY POTTER E A CÂMARA DO ATO SECRETO”

0 Sarney Potter

DIA DO AMIGO E O MAR DA TRANQUILIDADE

0 Amigos na Lua 2

A caixa de entrada do email hoje lotou rapidamente, e as mensagens traziam consigo lembranças de amigos do mundo real e do mundo virtual. Enquanto isso, e eu que andava longe dos meus amigos para tentar responder suas mensagens eletrônicas, ouço que a comemoração do Dia do Amigo se dá nesta data exatamente em função da chegada do homem à Lua. Segundo alguma matéria que ouvi em não sei qual emissora, a definição da data era uma alusão ao passo que a humanidade dava na busca de outras formas de vida, como se precisássemos saber que não estamos sozinhos.

Francamente! Lógico que não estamos sozinhos. A prova disso é simples. Experimente tropeçar em plena Rua XV de Novembro para ver se não reencontra uma porção de gente que adoraria tirar um sarro do seu “cata cavaco”. Ou pior, é só você sentir que algo incômodo está em seu nariz, para estar cercado de gente que fica olhando para sua cara e amarra sua mão impossibilitando que você tire o “tatu xarope” que tanto lhe incomoda.

Na verdade, não estamos sozinhos nem quando gostaríamos de estar. Do sofá que desmancha no meio da sala no domingo, é muito provável que se ouça a campainha tocar anunciando a visita daquele primo que se enrola durante três horas, até sair o café, para pedir algum dinheiro emprestado.

E se a mulher mais bela do mundo resolve nos alongar um sorriso estonteante e cativante, é lógico que não estamos sozinhos, pois a patroa percebe o flerte antes mesmo de você conseguir respirar.

Se você resolveu adiar aquele relatório, ou mesmo deixar para amanhã a conclusão daquele projeto, é só contar até três para você perceber que não está sozinho, e bem embaixo do focinho de seu chefe você está prestes a não ficar sozinho na fila de alguma entrevista de emprego.

Não estamos sozinhos.

E o tal Dia do Amigo combina com a data mais imprópria de tudo isso.

Enquanto dois sacanas pisavam na lua, um terceiro ficou sim sozinho em uma espaçonave há uma distância monstruosa de tudo e de todos. No meio do caminho, para que alguém levasse os louros de conquistar a Lua, um amigão ficava de fora da façanha, mais ou menos como se estivesse na porta do motel com a Cicarelli e ela resolvesse desistir de entrar.

Dia do amigo com dois caras sozinhos na Lua? É de se pensar o que seria dessa amizade dos dois se fossem deixados por lá durante um ano. Depois da primeira semana já estariam se pegando no pau como se estivessem num Big Brother. E se um deles ao descer da espaçonave esquecesse a chave da viatura do lado de dentro? Já imaginou onde ia ficar a amizade? Em vez do conhecido “Houston, temos um problema”, a frase mais conhecida da NASA seria: “Houston, eu vou matar esse cara!”

E onde pousou a nave? No Mar da Tranquilidade.

Pois aqui vai outra. Quem tem amigo não conhece a tranquilidade. Se você decidir ficar na sexta repousando tranquilo em casa, logo um amigo, que pode até ser esse que escreve, liga pra você para te aporrinhar a vida para sair e pegar aquela noitada no boteco.

Se teu time perdeu no “domingão”, torça para encontrar um inimigo, pois se encontrar um amigo que torce para o outro time, Meu Deus, você terá que aguentar uma semana inteira com os sarros mais inoportunos que uma ser vivente pode experimentar.

Mas tudo isso faz parte, pois a vida sem amigo seria tão insossa quanto uma canja de hospital do SUS. Se teu time ganhou no domingo, é você que vai se divertir às custas de um amigo durante a semana inteirinha, e mais um pouco se o time dele estiver na zona do rebaixamento.

Se te falta aquele cinquentão na carteira, é você que liga para sair na sexta.

E se você está com preguiça de passar café no domingo, é você que tira algum coitado do sofá.

Mas de tudo, até porque não quero ficar tomando muito tempo de nenhum amigo meu com este texto, resta uma certeza absoluta.

A data escolhida para o Dia do Amigo é um verdadeiro absurdo.

Enquanto o homem saía da terra, na busca de encontrar mais alguém no universo para saber que não estamos sozinhos, uma porção de amigos desses astronautas quase suicidas ficaram apavorados por aqui para saber se eles conseguiriam voltar.

Exatamente isso.

As vezes vamos procurar amigos tão longe, quando na realidade eles estão tão perto, que acabamos não notando sua presença. Você por acaso já percebeu quantas vezes já mandou email para o seu amigo do escritório que trabalha na mesa ao lado? Levanta duma vez e vai lá contar a piada dele. Larga mão de pentelhar os outros com piadinha em “ppt”.

A todos os meus amigos, e aos amigos dos amigos, ou mesmo os amigos que nem conheço, mas são amigos de alguém, um abraço fraterno, pois amigo é coisa rara, e como tal, deve ser valorizado aqui e agora.

Ir a Lua para buscar um amigo? Só para quem quer um mar de tranquilidade.

0 Amigos na Lua 2Mas isso é coisa de gente que vive no mundo da Lua.

OS PIZZAIOLOS – Stand Up Comedy com Luiz Inácio Lula da Silva

Lula Show

 

Estive pensando, e pode acreditar que apesar da loucura do dia a dia, as vezes ainda consigo fazer isso. Na qualidade, ou falta dela, de dono de bar, sempre tive a intenção de levar ao público frequentador boas atrações. E como tenho forte ligação com o teatro de comédia, meu sonho sempre foi trazer para o palco da Cervejaria um show de Stand Up Comedy. Quem sabe um dia eu ainda consiga trazer alguém do gabarito de Rafinha Bastos, ou mesmo, o hilário Marco Luque. Mas isso é coisa para se pensar quando exista algum dinheiro em caixa, que cá entre nós, e o resto da internet também, é cosia rara, exceto nas gavetas mágicas de Brasília.

Tenho que, na melhor forma de herói Brasileiro, sem poderes e sobrevivente da “Gripe do porco” (tem gente dizendo que essa girpe nem é tão ruim, se for considerado o número de argentinos que ela já matou – mas isso é muito sarcasmo), que encontrar algo dentro das possibilidades do meu bar, como por exemplo, algum tupiniquim como eu, daqueles que tem cinco ou seis empregos para pagar o imposto de renda. Quem sabe um advogado, escritor, corretor de imóveis e consultor sentimental, ou coisa que o valha, que possa cobrar um cachê pequeno, ou mesmo se apresentar pelo couvert artístico.

E nessa odisséia, quem sabe eu tenha encontrado uma solução interessante. Um cara engraçado, ou palhaço mesmo, que tenha alguma outra ocupação rentável?

Já sei! Encontrei o cara ideal!

Luiz Inácio Lula da Silva.

Vou convidar o vosso presidente (e não adianta querer chamar de meu também, pois embora anarquista, eu não votei nessa anarquia). Exatamente isso. Imagino o neon que ainda nem consegui comprar, piscando frenético na frente do meu bar anunciando: “Esta Noite Show com Luiz Inácio e convidados”. Os convidados poderiam ser alguns ministros, deputados, senadores, presidente de CPI, de Conselho de Ética, ou outro palhaço qualquer que faça parte da crônica tragicômica da política da Terra de Vera Cruz. Mas considerando que nessa terra quem carrega a cruz é nossa clientela, creio que a comédia poderia descer amarga, feito pizza de giló.

De qualquer forma, fica aí o convite  para o senhor presidente. Já que se tem demonstrado um comediante em meio à tragédia, embora seu humor seja de gosto discutível, quando passar por Curitiba novamente, se a gripe do porco não levar vosso espírito para o raio que o parta, dá uma passadinha em nosso bar.

Se por um lado administrar o país não é seu forte, sei que manda bem nos goles. Ao menos é o que dizem na imprensa. Essa mesma imprensa que tem divulgado o seu alto índice de popularidade. Aliás, para o sucesso de um bom comediante, a popularidade é tudo.

Ao menos venha beber conosco para saber o que nossa clientela pensa dessa sua figura. Mas venha sem seguranças. Assim como sem seguranças estão os trabalhadores, as vtítimas de balas perdidas e mais uma porção de vítimas ao abandono de Brasília. E se espirrar daqui meia hora, Saúde! Não que alguém lhe deseje isto, mas é para o senhor lembrar que a saúde pública não é comédia.

IMPORTANTE. É de se pedir desculpas a Rafinha Bastos e Marco Luque, lembrando que não desejamos em momento algum, comparar vosso trabalho honesto com o de nosso presidente.

DONA com Samuel, Ronaldo e Ítalo

MEMÓRIAS DA CASERNA

 

 

Ainda com a face rosada do leite materno, cabelo da moda e roupas de grife ( a única calça Jeans que tocar em bares me permitiu comprar), enfileirei diante do quartel com mais uma multidão de piás pançudos esperando me livrar do Serviço Militar obrigatório.

Antes que perdesse o jeito civil, perdi os cabelos que ladeiam a cabeça para a máquina zero de um barbeiro simpático, mas extremamente sarcástico, e logo fui vestir o verde oliva por um ano, dois meses, vinte e cinco dias e dezoito horas.

Daquela época me restaram algumas lições que ainda prevalecem aos meus cabelos brancos. Cada lição aprendida em uma oportunidade única, criada tão somente no absurdo de uma guarnição erguida nos padrões militares, ainda regida pelos últimos suspiros do militarismo do então Presidente General Figueiredo.

Ainda na primeira noite da quarentena no quartel (e não me lembro de ninguém doente, exceto um tal Sargento Sosnoscki), no dia da incorporação, vejo na chamada do pernoite um armário negro, de farda verde, com o humor de um cão de guarda, erguido sobre coturnos diante da tropa. A partir dali eu não teria nome ao longo do ano. Seria só um número, e ao ouvi-lo, eu deveria gritar pondo os pulmões pela boca. Soldado 138 Rangel! E se ouvisse um “identifique-se militar”, eu deveria ir além: Soldado 138 Rangel, da Quinta Companhia de Polícia do Exército.

E assim a chamada começou do número 29, pois aprendi que até ali, eram apenas “antigões” (soldados engajados).

Tudo normal até chegar o número 78. Embora se esperasse ouvir o nome de algum companheiro de martírio para aquele ano de 1985, ou que se ouve foi uma sucessão de: Scut, Scut, Scut….. e o maldito nome não saia. O armário repete o número, e outra porção de Scut é ouvida. Genésio, o soldado que deveria responder ao número 78, era absolutamente gago, coisa que os avaliadores da saúde na época da incorporação não olhavam, pois estavam mais preocupados com as pregas íntegras da tropa.

A tropa caiu na gargalhada, e aprendeu a primeira lição: Militar não ri! Após cair na gargalhada, caiu pronta para uma série de flexões de braços. E lá estava o armário, Sargento Batista, a ensinar a primeira lição da Caserna.

Militar não ri de seu colega de farda! Vamos empurrar o mundo até o Soldado Genésio conseguir falar o seu nome corretamente.

Cerca de quarenta minutos de flexões e Genésio não conseguia gritar o próprio nome, ainda mais nervoso, em face de ser o único em pé enquanto uma tropa de 130 soldados empurrava o mundo com os braços doloridos. Neste tempo, apareceram alguns ventríloquos para tentar ajudar Genésio, mas logo eles eram descobertos e encaminhados para a primeira prisão no quartel.

Com a tropa exausta e barriga estatelada ao chão, Sargento Batista deu seus primeiros sinais de bom senso, que ao longo do ano se revelaria como fundamental à minha sobrevivência no quartel. Ele dispensou a tropa e aconselhou a Genésio que aprendesse ao menos falar seu próprio nome. E quanto a tropa, que aprendesse a não rir de um colega de farda.

Passagens como essas não foram poucas, e muitas vezes a tropa empurrou o mundo por mera vontade de algum oficial ou graduado mal humorado.

Mas a diferença veio para mim no dia dos soldados.

Um determinado oficial, daqueles de bundinha arrebitada e que não sabia falar em tom tranqüilo, louco de dar dó, determinou que em homenagem ao Dia dos Soldados, fosse servida no almoço para os praças a carne que se encontrava meio maturada, para não dizer podre. O cheiro da carne no refeitório era forte, e preferindo não almoçar, fui direto para meus afazeres na cozinha do Rancho (maneira com que os militares se referem ao refeitório).

Como era um dos nove policiais que cuidava do canil, duas vezes por semana eu juntava a sobra das comidas das bandejas dos soldados para alimentar os cães. Além dessa dieta, os cães ainda contavam com um suprimento de carne de quase um quilograma por semana para cada um. Assim, era comum eu sair com um saco enorme com carne para os robustos caninos do Canil da Polícia do Exército.

Naquele dia, ainda tive a oportunidade de roubar dois bifes de uma das frigideiras que estavam largadas sobre o fogão. Como os passos do rancheiro eram pesados, logo vi que meu furto seria de pouca serventia para matar a fome dos meus oitenta e cinco quilogramas de verde oliva. Na saída o rancheiro me chama e me faz recordar que era dia de levar a carne para os cães.

Saí do rancho carregando um saco de quase 20 quilogramas de carne, xingando o tenente cujo nome dou a chance de não citar, e fui lembrando da carne podre que o maldito havia mandado nos servir no almoço. A insanidade do desmiolado oficial me ofendia ainda mais quando eu olhava a carne fresca que serviria ao cães.

Ao passar pelo saguão da companhia, ainda vi o infeliz do tenente rindo, e não demorou a perguntar se a comida estava boa. Como já tinha certo tempo de farda, não deixei por menos e disse a ele que um não havia comido no rancho dos soldados. Informei a ele que o Major da Cia. de Comando havia mandado me servir um prato do rancho dos oficiais.  

Literalmente fui marchando pelos trezentos metros que separam o canil da companhia. Entrei na cozinha do canil e comecei a preparar a carne para servir aos cães, meus únicos comandados.

Naquele momento, percebi que a carne, cheirosa e fresca, ainda escorrendo sangue, era o que na minha casa chamamos de “sete”, em função do formato do osso. Tantas vezes eu havia feito churrasco com aquele tipo de carne que percebi ali a possibilidade de um troco no oficial bundinha.

Separei a carne do osso, embrulhei os filés com higiene, e os acondicionei na geladeira da enfermaria do Canil. Como se tratava de muita carne, percebi que podia dar a minha festa e ainda fazer uma bela moral com o restante da tropa.

Subi para o alojamento e marquei com alguns amigos do segundo pelotão o churrasco noturno. Alguns saíram do quartel e foram providenciar o sal grosso. Outros ficaram cabreiros mas, mas a curiosidade os levou até o canil, depois do pernoite, para ver como se faz um churrasco escondido de uma tropa inteira, de sentinelas armados, e de um oficial bundinha que não dava assistência para sua mulher.

Quando lá chegaram, não passavam de cinco corajosos primeiro.

Como os fundos do Quartel General era área conhecida muito bem pelos praças, e não pelos oficiais, resolvi fazer o churrasco em pleno campo das trincheiras. Os oficiais, quando não tinham nada para fazer, nos obrigavam a cavar trincheiras que jamais seriam usadas. Uma delas, que caberia perfeitamente um Jeep, acomodaria com sobras os cinco churrasqueiros da madrugada.

E assim fizemos. Lenha seca no buraco, fogo no fundo e galhos secos por cima para que a luz do fogo não iluminasse a fumaça. E ali começamos o churrasco. Não demorou muito, para que outros soldados que acompanhavam a idéia de longe para ver se ia dar certo, irem pedir um tostão de carne.

E assim fomos ao longo da noite. Apagamos o fogo do buraco, jogamos as sobras além da cerca que dava para a favela, e fomos curtir a barriga cheia. Se o dia foi do tenente bundinha, a noite foi dos soldados.

No dia seguinte, fui obrigado a fazer constar da passagem do serviço, que os cães estavam com diarréia, apesar de que nenhum realmente tivesse apresentado qualquer sintoma. Quando fiz isso, foi de forma a evitar que porventura sobrassem para mim os pedaços de carne podre que eles comeram junto com a comida dos soldados.

Três dias depois, enquanto liam o Boletim Interno as sete horas da manhã, foi determinada a instauração de Inquérito Policial Militar para apurar índicos de vandalismo no quartel (incêndio). Também era determinado pelo Comandante da Companhia, que o Comandante do Canil apurasse os motivos da intoxicação dos cães, conforme constantes de meu relatório de serviço.

Por sua conta, o tenente bundinha investigava rumores de um suposto churrasco entre os praças, mas a unidade da tropa manteve o silêncio, e as única provas do delito gastronômico, já boiavam em algum rio a quilômetros dali. Ele me olhava com desconfiança, mas não passou disso.

O inquérito sobre o incêndio não passou da capa, ao passo que, depois de uma semana, fui chamado para depor no caso da intoxicação dos cães, na qualidade de soldado que os havia alimentado.

Chegando lá, relatei o ocorrido conforme havia sido, porém, ocultando que a parte da carne boa havia virado churrasco, é lógico.  O tenente bundinha depôs como Oficial de Dia, e é claro que a coisa foi estourar no rancheiro. Então o rancheiro informou que serviu a carne em más condições aos soldados por ordem do tenente bundinha.

Fui chamado novamente, e a intenção era me punir por ter servido aquela carne aos cães. Chegando na sala do S2 onde o inquérito era processado, me foi perguntado por qual razão eu havia servido comida estragada aos cães. Eu respondi que não sabia que a tal comida estava estragada, pois enquanto recolhia o material no rancho, o major da Cia. De Comando me havia servido um prato com comida dos oficiais. Assim, eu não poderia saber das más condições do alimento.

Dispensado, da sala, voltei aos meus afazeres com a certeza de que algum “detimento” (pena na qual o militar não pode se ausentar da guarnição) me sobraria. Quando percebi que a solução do inquérito foi publicada em boletim reservado (boletim cuja leitura os praças não acompanham, onde normalmente oficiais são punidos).

Alguns dias depois, no final de semana, vejo o tenente bundinha de moletom, sem função, e cumprindo o que parecia ser um “detimento”. À noite, enquanto tomava um garrafão de vinho com um cabo e alguns outros praças, o cabo deixou escapar que o detimento de bundinha era em função da história da carne podre.

A sensação foi muito boa. Apesar de não ter pensado naquele resultado, ele não poderia ter sido melhor. Fiz churrasco de graça para os amigos com a carne dos cachorros, e ainda por cima consegui um detimento para o tenente bundinha. É certo que a carne era do cachorro, mas quem passou um dia de cão no detimento foi o tenente.

Boas memórias da Caserna. E se alguém tiver dúvida, que pergunte ao Campanhollo, motorista do Carro Choque se a carne estava macia.

Quanto a Campagnollo? Hoje também é dono de um bar em Curitiba. Mas a sua passagem pela 5a. Cia de Polícia do Exército … Esse é um outro caso, que merece um texto só pra ele.

Finalizo mesmo é com o Soldado Guerino, flagrado tomando banho de água quente nos panelões do Racho. É lógico que passei a cozinhar meu próprio miojo.