ILHA DO MEL – TEMPO, VENTO E SUSPIROS (Samuel Rangel)

ILHA DO MEL – TEMPO, VENTO E SUSPIROS (Samuel Rangel)

Nos tempos da ditadura do relógio, onde não vencemos o dia, são difíceis os momentos que temos para pensar no passo de ontem. Fazemos muitos projetos para o futuro, porém, deixamos de considerar o passado, enquanto esfarelamos o presente em nosso dia louco, em meio a pauliceia turbulenta e tumultuada que nos envolve. Mas o incrível, é que só teremos um tempo para pensar quando chegar a nossa próxima derrota, o nosso próximo tropeço, ou mesmo depois de nossa próxima decepção.

Se tivêssemos sido menos vorazes em nossos avanços, quem sabe poderíamos ter evitado esse momento de certo amargor.

Cansado do marasmo louco desse cotidiano que devora meu tempo, acontece tanto que não acontece mais nada, e desistimulado pelas decepções que são tão comuns a todos, acabei sendo premiado com o tempo que precisava. Quem sabe, por ter orado pelo verão antes mesmo dele chegar ( https://samuelrangel.wordpress.com/2009/11/10/uma-oracao-pelo-verao/ ).

E foi assim que desisti um pouco de todos esses meus compromissos e reboliços. Então o destino me conduziu no balanço do barco até a Ilha do Mel. Ao meu lado, o pequeno marujo João, meu filho, que eu haveria de descobrir então como companheiro de aventuras, andarilho incansável, explorador quase corajoso, parceiro que descobriria os encantos de dormir sob a lona de uma barraca, em meio à toda natureza que se despeja poeticamente sobre a ilha.

Com os pés na areia e os olhos no mar, tal qual havia pedido em minha oração, pouco abaixo do horizonte, agora posso ver o garoto andando com as águas pelas canelas. Em sua mão o pedaço de bambu que resolveu juntar para fazer de cajado. A imagem dele então parecia uma miniatura sem barba da figura pantaneira do “Velho do Rio”, homenageada em nossa teledramaturgia.

E salta sobre minha visão a pergunta aterrorizante sobre o que eu estava fazendo com meu tempo enquanto ele crescia. Mas ainda ontem era uma criança, e uma semana distante, essa criatura já se apresentam diante dos meus olhos como miniatura de homem.

Quantas noites desperdiçadas em prejuízo da manhã que poderia ter com o filho?

Respeitando as noites que me lavaram a alma pichada por moleques das vielas de meus erros, lamento os equívocos, as dedicações tolas, os segundos preciosos que perdi em minha persistência de homem turrão, cego diante dos dedos da intuição que me apontava algo, e surdo diante dos sussurros de conselho que meu bom senso soprava mostrando uma direção diferente.

Como no jardim de infância, eu e meu grão de feijão que não crescia, perdendo o tempo valioso que tanto me faltaria.

E algumas vezes, o pé de feijão não cresce diante dos olhos invejosos, e em outras, não cresce em função dos exageros ou da economia de água. Mas a grande maioria das vezes, o que não me permitia ver a planta crescer, era exatamente minha ansiedade.

A criança deveria saber o momento de virar os olhos em outra direção e abandonar o copinho de iogurte. Deixando o feijão à própria sorte, quem sabe em algum cantinho do lixão, ele encontraria a água e a luz que só o curso natural pode lhe dar.

O tempo e o vento não param jamais, nem voltam diante de um desejo, nem têm qualquer piedade dos meus ou dos seus suspiros. E isso é bom. Junto com nosso suspiro, um novo vento, uma nova direção. E então podemos começar um novo tempo, uma nova caminhada.

E o interessante sobre o tempo, e os desperdícios que dele cometi, é que de certa forma, o que fazemos de nossos segundos, minutos e horas, dias e anos, lembra um pouco das encruzilhadas da Ilha do Mel. Flechas que apontam em todas as direções, e cabe a nós, somente a nós, decidir qual a trilha a seguir. Farol ou Fortaleza? Praia Grande ou Ponta do Nada? Brasília ou Encantadas? E lá se vai nosso tempo, na medida de nossos passos, certos ou errados.

Assim a Ilha do Mel trouxe-me não só a benção de sua natureza exuberante, nem tampouco os segredos e lendas de suas histórias, mas também algumas das poucas certezas que poderemos ter durante a vida.

Enquanto eu desperdiçava meu tempo, meu filho crescia e se preparava para o nosso tempo, como princípio do seu próprio tempo. Agora tenho ali, ao meu lado, esse pequeno amigo, com o qual conversamos sobre coisas da natureza, da vida. Ouço vez por outra um palpite do pequeno sábio iniciante, uma espécie de tolo no final da carreira que não acaba, dizendo das coisas que devo fazer para resolver meus problemas de adulto. Tenho agora uma dupla para o meu mergulho, que principia na arte da observação do mar, batendo pelas primeiras vezes o pé-de-pato que fica enorme, que aprende a ajustar a máscara e que a saliva não lhe deixa embaçar o visor. Um amigo com o qual divido as trilhas da ilha, as trilhas da vida, passo a passo, guardando com carinho cada imagem.

Vez por outra tenho que lhe acalmar o espírito diante das abelhas que tanto lhe assustam. Eu não entendo como a coragem que lhe falta diante de abelhas, sobra-lhe no momento de cercar a Caninana que assusta a tantas pessoas. O medo de abelhas, quando longe delas, dá espaço à tranquilidade que lhe faz agachar e observar o lagarto enorme, verde e amarelo, que corre pelo mato derrubando e quebrando galhos.

Não tenho que entender ou saber de tudo mesmo.

Como pode esse pequeno cavalheiro ter medo das abelhas, e tanta coragem na hora de colocar o caranguejo para andar em sua própria cabeça?

Não preciso de resposta.

Não quero um herói, quero apenas um amigo.

Não quero um ídolo, quero apenas um companheiro para essas trilhas.

Não quero nenhuma perfeição, quero apenas o filho que a vida me trouxe.

Ah! Essa Ilha do Mel! O verão de 2010 ficará marcado de forma muito especial.

A Ilha do Mel me apresentou o amigo que não encontrei nos bares, nas noites. Meu filho!

Sim, embora eu não tenha me afastado dele mais de uma dezena de dias nestes dez anos, ainda assim percebo que perdi muito tempo. De um dia para o outro, eles crescem tanto que já nem mais os reconhecemos.

Por si só, já me bastaria tamanho encontro, mas como bônus, na ilha conheci pessoas diferentes, longe dos seus carros. Você sabe o que é igualdade?

Conheci as pessoas sem maquiagem, sem roupas finas. Você sabe o que é simplicidade?

Tive a oportunidade de caminhar com amigos até a “Ponta do Nada”, enquanto falávamos sobre as histórias dos escravos, para os quais a Ilha do Mel nunca foi doce. Você sabe o que é tranquilidade?

Vez por outra alguém se arrepiava com a lenda do Padre sem Cabeça. Meu filho escutava atento a história da Batalha do Cormorant, motivo pelo qual, em especial ele gostava das caminhadas até a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, onde viajava no tempo com os pés na praça dos canhões.

Ilha do Mel das pescarias durante a madrugada …

… ou do susto da moça que teve a cobra verde a lhe passear sobre os pés.

… do violão que desafia o dia e faz seresta debaixo do sombreiro que esconde o sol.

… da tranquilidade de Nova Brasília, ou da música da Toca do Abutre.

… dos barcos de todos os tipos apoitados diante da pousada, dividindo democraticamente as ondas que lhes fazem chacoalhar a proa.

… do garçom Magrinho, do flautista Joãzinho, do Claudinho e do Neguinho, de tantos “inhos” que se embrenham por aqueles caminhos.

… dos cães de Maria Helena, e  da “Maria Farinha” que dribla a criançada em algazarra.

… do tornado que se exibe na Ponta do Nada.

… do Ronaldo, comandante e navegador cauteloso, que tanto navega e circunda a ilha, conhecendo-a como ninguém.

… do descanso de Priscilas, Paulas, Micheles,  Brunas, Marias e Cristinas.

… de Josés, Fernandos, Ricardos, de Jamil,  de João e de Samuel, de Raquel e de Taís.

… do turista e do “Ilhanês”, do folgado e do apressado, da força e da delicadeza.

Ilha do Mel de todos e de ninguém.

E se eu não tivesse perdido?

Se eu não tivesse tropeçado?

Se eu não tivesse me decepcionado, eu teria sido presenteado com tanto?

Só me resta agradecer a Deus. Minha oração pelo verão foi atendida.

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* Deseja ler o texto “Uma Oração pelo Verão” ?

https://samuelrangel.wordpress.com/2009/11/10/uma-oracao-pelo-verao/

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