2013. E o mundo não acabou.

2013 – E O MUNDO NÃO ACABOU

Eduardo e Mônica, um jovem e promissor casal da Capital Paranaense que conquistou aos sete anos de matrimônio seu maior sonho: uma casa no mais luxuoso condomínio residencial de Curitiba.  

Em plena crise dos sete anos, ocuparam a casa em estase, orgulhosos de sua merecida conquista. Apenas esqueceram-se de um detalhe. Ele um próspero advogado, e ela uma cirurgiã plástica com pesquisas e trabalhos publicados, teriam que se dedicar agora também à administração de sua pequena mansão.

Mônica rapidamente começou a ficar estressada com a administração do pessoal de serviço. A empregada que acompanhou o casal, já na primeira semana pediu demissão, alegando que o mesmo salário para limpar o triplo da metragem do imóvel, era ao seu ponto de vista injusto. Nova empregada, mais uma diarista, uma cozinheira, e que algumas vezes trazia a filha desempregada para ajudar Marilda na limpeza. E o estresse de Mônica já era completo.

Eduardo se descabelava, e sentia o avanço de sua calvice nas quase quatro horas de trânsito que enfrentava todo dia.  Após despejar silenciosamente no volante três rodadas completas de seu repertório de palavrões,  chegava em casa exausto, encontrando Mônica no auge do estresse.

O campo de batalha estava preparado. O jovem casal então se flagelava com as agressões mais diversas, e após chegarem às portas do desrespeito, pensarão então pela primeira vez no divórcio. Complacentes chegaram ao acordo de que venderiam o imóvel, e comprariam um apartamento para cada um. Tratava-se sim de pessoas com certo equilíbrio, que apesar dos desentendimentos, não queriam levar nenhuma vantagem sobre o outro. Era lamentável, mas tinha que ser feito.

Eduardo então contatou um amigo seu corretor, manifestando a sua vontade de realizar o negócio. Como o corretor era amigo seu,  ficou surpreso e passou a indagar Eduardo sobre os motivos que levaram aquela decisão. Na conversa, ficou bastante claro que a mudança para o paraíso, havia transformado a vida do casal em um verdadeiro inferno.

Após uma semana de busca, o corretor liga para Eduardo e lhe oferece uma solução diferente. Uma das grandes incorporadoras da área, havia lançado um empreendimento fantástico. A mais moderna concepção de imóvel inteligente e totalmente automatizado, já dispunha de algumas unidades para entrega.

Após os trâmites legais dos contratos Eduardo e Mônica fecharam o negócio e decidiram se livrar do clube de campo que haviam feito de lar. Ao ocuparem o apartamento, perceberam que se tratava de uma idéia fantástica. Nada de chaves, permitiam ao casal carregar esse peso a menos, que aliás, normalmente some nas calças da lavanderia.

Uma senha para a empregada, outra para a diarista, outra para a cozinheira, davam acesso aos funcionários tão somente no horário designado para a sua chegada. Um minuto de atraso e a diarista era obrigada a ligar para a patroa e comunicar seu atraso. Como tudo poderia ser acompanhado da internet, Eduardo e Mônica acessavam o site as vezes para conferir o trabalho dos empregados.

Com tanta modernidade, o casal passou a ter um tempo a mais para seus cuidados com suas próprias vidas. E então as diferenças começaram a aparecer. Quem não tem tempo para si, não se revela ao outro.

Como a localização do apartamento era de fácil acesso, Eduardo passou a poder freqüentar o happy hour com os amigos, enquanto Mônica podia dar uma passada no shopping e escolher algumas roupas novas. E cada um chegava no seu horário.

Certo dia,  Mônica percebeu que o seu relacionamento estava ficando distante. Sentada na sala de pé direito duplo, vestindo a bela lingerie que havia comprado para fazer uma surpresa para Eduardo, Mônica novamente ficou estressada subitamente.

Eduardo chegou mais tarde naquela noite, e os dois acabaram discutindo. Foram para a cama dando as costas um ao outro, e no menor toque de sua ancas, se afastavam prontamente, deixando claro de que o conflito estava renovado.

Eduardo, desmotivado para retornar a sua casa, passou a demorar mais e mais em seu happy hour, chegando às margens da madrugada, e depois adentrando a ela sem o menor pudor.

Numa dessas noites, Mônica usou o apartamento como arma. Ela percebeu  que poderia mudar a senha da porta de entrada e definir o horário para chegada de seu marido. E assim fez.

Ao chegar em casa, balançando os drinques que lhe haviam bebido a vergonha, Eduardo digitou a senha sete, sete, sete , sete. E nada. A porta não abriu. Uma gargalhada, e mais uma vez. Nada. Passou as mão no bolso e procurou alguma chave. Nada de chaves Eduardo. Após inúmeras tentativas, Eduardo decidiu ir dormir no carro. Usando o notebook de travesseiro, teve a noite mais desconfortável de toda a sua vida.

Na manhã seguinte, Mônica o acordou enquanto pegava o carro dela para ir trabalhar. Bom Dia Eduardo. Aquilo pareceu um provocação. Eduardo sentiu-se sacaneado, e só então se deu conta de que apenas dominava a tecnologia da televisão e da luz do apartamento que havia comprado.  

Então, decidiu procurar a segurança do edifício para ter maiores informações de como poderia resolver aquele problema.

O segurança então o recebeu, e após saber de sua noite no carro, riu, informando-lhe que poderia ter usado o notebook para abrir a porta, antes de usá-lo como travesseiro. Mas pacientemente o simpático segurança passou a dispor de todos os meios de controlar o apartamento, e então Eduardo sentiu-se pronto para a batalha.

Eduardo então, propositalmente, alterou a senha dos funcionários, e impediu que o apartamento fosse limpo da forma com que sistematicamente Mônica exigia.  Mônica teve a crise nervosa mais impressionante de sua vida.

Mônica em contrapartida, acionou os comandos determinando que a televisão só ligaria quando a tampa do banheiro estivesse abaixada.  Nunca mais Eduardo conseguiu assistir televisão.

Eduardo então contra-atacou determinando que a luz do banheiro só acenderia se a cafeteira estivesse ligada. Mônica começou a tomar banho à luz do dia, e Eduardo nunca mais tomou o café da manhã que lhe preparava o humor para o dia.

Mônica deu um golpe de mestre. A poltrona com massagem relaxante só funcionava se o lixo estivesse no lugar da coleta.

Assim foi até que os dois não tinham mais o que fazer dentro de casa. Então tiveram que conversar. Ainda afetados pela recente crise dos sete anos, decidiram pelo divórcio uma segunda vez.

Dessa vez, distribuíram a ação de divórcio consensual, deixando a partilha para ser decidida em audiência. Permaneceram morando no apartamento cada um em um quarto. Tratativas, só as indispensáveis.

Na audiência, o juiz indagou sobre como fariam em relação ao apartamento. Nenhum deles queria abrir mão. Suspenderam o processo.

Naquela noite em casa, resolveram conversar para ver como seria. Nenhum dos dois queria abrir mão do apartamento. Pessoas civilizadas, apenas conversaram durante longas horas, enquanto olhavam o apartamento de forma apaixonada. E a conversa não evoluiu. Vender o imóvel seria dar para outra pessoa a maior conquista que realmente haviam realizado.

Longas horas de conversa, e a exaustão convidou a calma para a conversa. Com calma, foi impossível evitar o bom humor.  Então começaram a falar do que haviam feito. E riram durante longas horas. Durante as gargalhadas, lembraram-se do tempo em que eram namorados, e o romance tomou o ambiente. Quando perceberam,  estavam se beijando como namorados, e tiveram uma noite maravilhosa.

Eduardo e Mônica não se divorciaram,

Ele aprendeu que se abaixar a tampa da patente, pode assistir televisão tranquilamente. E para que Mônica tenha suas horas de prazer no banho Iluminado, basta ligar antes a cafeteira.

Hoje Eduardo é síndico do edifício, e ao que se sabe, conseguiu evitar a separação de outros casais moradores. Mônica tem tempo de reunir as moradoras e amigas no salão de festas. Lá elas conseguem rir de seus maridos sem perder o respeito por eles. Bernardo e Bianca, Leo e Bia e tantos outros casais, descobriram que podem ser felizes juntos.

2013, e o mundo não acabou.

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