REUNIÃO ANUAL DAS PESSOAS QUE SE REUNEM ANUALMENTE – UMA AVENTURA ANTROPOLÓGICA INSÓLITA.

Dizem, que anualmente, um grupo de homens de certa idade, uns mais outros menos (quanto a idade) se reúnem anualmente. Nessa reunião cada peça é importante. Cada um tem seu papel, a ser interpretado fielmente diante do cenário ideal: Uma churrasqueira ampla, alguns freezers bem lotados, simpáticos garçons, alguns organizadores e um anfitrião. Dentre aquela ampla diversidade de estilos e psicológicos, surgem então algumas figuras que passo a descrever. Injustiça, pois grande parte é literalmente indescritível.

Existem aqueles que aproveitam a reunião anual das pessoas que se reúnem anualmente para filosofar. Os filósofos desempenham longas defesas de teses, mais ou menos esdrúxulas, que conduzem o saber aos limites do inacreditável. Descobrem soluções fantásticas, que resolvem desde o aquecimento global até a misteriosa diminuição da pena do rabo do papagaio perneta de Ilha de Sumutra.

Há os articulados, que aproveitam para aprimorar seus contatos sociais, profissionais, e porque não, até alguns solteiros que resolvem seus assuntos amorosos, ao saber da mais nova solteira do mercado, ou da filha do amigo que está de volta de sua viagem ao Turcomenistão. São mais discretos e costumam se portar de forma mais elegante, tendo claro, as exceções que confirmam a regra. Há os “truqueiros”, povo de pouca fala e muito grito, que se senta ao redor de um baralho para descobrir se o trapaceiro está ou não trapaceando.

E os degustadores, normalmente se reúnem perto da churrasqueira. São aqueles que abordam o garçom com o espeto na mão, e levam as mais preciosas partes da alcatra. São extremamente profissionais, e se apresentam sob a mais variada forma de pesos e cabelos. Existem os chorões, que abordam cada um dos presentes para ouvir deles as notícias. Choram com as boas e com as ruins. São normalmente desidratados. Existem os chatos, que normalmente se aproximam da mesa do truco. Não conseguem ficar quietos por muito tempo, e normalmente segundos antes de levar alguns sopapos, encontram outra pessoa para dar os seus palpites. Normalmente anda com camisas viscosas, têm mãos fortes que lhe seguram por várias horas, e deixam escapar alguma saliva enquanto falam.

Mas existem também as espécies mais raras. Aquele que só vão para reclamar da carne, os que vão para reclamar da cerveja, e os que vão para reclamar por estar tudo perfeito, mas o tempo não ajudou. Tem os que vão contar que estão pegando, e aqueles que vem contar que não pegaram ninguém. Outros falam que gostariam de pegar alguém. Normalmente estes últimos contam mesmo é com a ajuda dos amigos para interromper a seca. Mas não é difícil encontrar uma subespécie. Aqueles que vem contar que estão pegando que nunca pegaram. Este grupo com todas suas subespécies se reúne entre os solteiros, e são extremamente fáceis de se identificar. Camisa da moda e calça de marca. Normalmente têm belos carros e a chave fica sobre a mesa.

O grupo dos sorridentes é despretensioso e irreverente. Conta piadas e histórias que podem ter acontecido ontem à noite ou décadas atrás. Vestem-se como dá, e tratam a arte de se vestir ou como uma obrigação de esconder seus equipamentos de batalha, ou como a arte de reunir o inimaginável em um só corpo. Apresentam-se as vezes nos churrascos com o apelido de “Seu Boneco”.

Há os amigos inveterados, que aproveitam a reunião tão somente para ver os amigos, saber como eles estão, e se prontificam a ajudar desde com a caixa de cerveja até com aquela tia encalhada. São camaradas abençoados, fáceis de se identificar, mas quase impossíves de se descrever.

Há o grupo incógnito, que ninguém sabe exatamente o que vai fazer, e há o grupo dos ausentes, que não comparecem. Há o grupo dos que vão para fumar, e há aqueles que vão para beber. Tem os mais e menos, os “híperes e os hipos”, os claros e escuros, os do norte e do sul.

Mas há os pretensos escritores amadores, que na realidade gastam seu tempo observando os outros para falar da vida alheia. São fofoqueiros com carteirinha, que criam um blogue ou uma página qualquer na internet, para contar o que as pessoas normais fazem normalmente.  

E existem aqueles que são tudo isso ao mesmo tempo, que se encaixam em cada um dos grupos.

Mas o mais interessante, é que na Reunião Anual das Pessoas que se Reúnem Anualmente, todos eles vão, acredite se quiser, para fazer o que fazem durante o ano todo.

E este é um mistério que só vou poder resolver na reunião do ano que vem.

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EM TEMPO:

Registro apenas uma homenagem sincera aos organizadores desta festa que nos é tão agradável, e nos faz bem, que se dedicam voluntariamente à difícil tarefa de reunir essa turma tão grande e exigente. Mas não poderíamos deixar de elogiar também nosso anfitrião, que nos recebeu tão bem em seu rancho. Que bom para ele que ele não faz isso durante o ano todo. rssss