FELIZ ANIVERSÁRIO MEU FILHO

Há onze anos você me desvenda o milagre da vida. Sem ares de soberba e com uma constante ansiedade em saber, mostra-me as verdadeiras razões pelas quais um homem deve viver. A cada pequeno erro, em nossas conversas, mostra-me que os erros se repetem, na história, e em diversões corações, não importando o quão boa é a alma que lhe faz pulsar.

E nesses onze anos, as lições foram recíprocas. Aprendi com você que a história de um homem divide-se antes de um filho, e depois dele. Descobri que o melhor a fazer por mim, e fazer tudo por você. Um tudo que certas vezes parece amargo, que traz junto uma pretensão de ensinar, de educar.

Sua ansiedade por aprender, iguala-se a minha ansiedade pela sua chegada durante os longos meses de gravidez. Seus pequenos tropeços na escola, lembram-me muito os meus tropeços na intenção de ensinar você sobre tudo.

E desde o momento em que você veio ao mundos pelos pés , içado à vida por uma médica que nos ajudou muito, passei a cravar em minha memória os momentos que tive contigo. Suas primeiras palavras. Seus primeiros passos. A primeira febre alta. O primeiro dia de escola. Os primeiros convites a conversar com a diretora da escola. As mudanças necessárias. As conversas, e tanto mais.

Hoje tenho em você não só mais um filho, mas também um companheiro. Lógico que por algumas vezes, esses companheiros precisam de uma autoridade, e quis o destino que eu fosse essa autoridade, de pai.

E se alguma autoridade me resta diante de tanto amor que lhe dedico, eu devo lhe ordenar que busque a felicidade, determino que você seja justo e honrado, como bom cavalheiro que já se revela em tenra idade.  E já que autoridade mandam, mando a você um grande abraço e um beijo paterno daqueles tantos que te dei, mas muito especial, por estar não só feliz nesse dia pelos seu aniversário, mas cheio de orgulho pelo filho que tenho.

FELIZ ANIVERSÁRIO MEU AMADO FILHO

E PARABÉNS POR VOCÊ SER QUEM VOCÊ É.

ILHA DO MEL – UM DIA NORMAL NUMA ILHA MUITO ESPECIAL

Meia noite o Vento Sul entrou com força. Sentado em frente da pousada, eu sentia a força do vento me empurrar contra o encosto da cadeira. Como arrastou as cadeiras encostadas com sua força, deixou-me bem claro que a mensagem era só pra mim. E incansavelmente comecei a repetir minha crença de que estamos nesse mundo, por uma mera concessão da natureza, e em virtude de uma intercessão de Deus.

Logo o Sul passou a dar seu show. O mar calmo que fazia a festa da criançada no fim da tarde, agora rugia ondas contra a contensão da pousada. E vez por outra pulverizava água em meu rosto. Foi quando vi que Pedro havia acordado e veio puxar o barco para um lugar mais seguro. Em meio ao mar atiçado, ficou em pé na sua canoa e logo foi cortando as ondas para o abrigo natural de um banco de areia.

Mas o Sul estava só brincando. Lentamente foi se acalmando e fez a ilha reencontrar o silêncio. Feliz e humilde comecei a perceber o avançado da hora. Para quem amanhã tem que acalmar as ondas de brincadeiras de meu filho, é bom aceitar o conselho dos últimos andarilhos que passavam pela areia rumo às suas barracas. É hora de dormir, pois o dia está só começando, e nele tenho que encontrar as oito horas de sono que nunca respeitei. Ansiedade de viver a vida. Um banho para tirar o sal e o corpo se entrega amigo do colchão.

Abro os olhos às sete da manhã, com a amiga de meu filho convidando-o para tomar um café. Vendo-o pular disposto para começar o dia, quase senti preguiça, mas logo aceitei o conselho do moleque alegre, para testemunhar o resto do dia na Ilha do Mel.

No café, as histórias eram sobre as cobras que foram vistas em algumas trilhas mais isoladas. Seriam elas Caninanas? Aquelas cobras em preto e amarelo que não possuem veneno? Não conseguindo extrair das crianças nenhum dado técnico, até porque de pouco me serviriam, resolvi relatar ao meu amigo, dono da pousada, sobre a proximidade de algumas visitantes indesejadas.

Com a calma de quem quase vive na ilha, ele me pediu ajuda para tomar uma providência. Dezenas de cabeças de alho trituradas e misturadas num grande balde de água servem de repelente. Assim passamos a manhã pulverizando aquele líquido ao redor de toda a pousada. E pelo que se viu isso funciona. Suando um calor maravilhoso, antes que eu pudesse tomar banho, sou convidado a ajudar a arrumar a máquina de centrifugar roupas. Com muitas ferramentas e quase nenhum material, passamos ali algumas horas, fazendo uma bucha de alumínio com latas de refrigerante, para ajustar o mancal ao rotor da máquina. E mais uma solução foi ajeitada com o que se tem, e deu certo.

Após um banho gelado para tirar o cheiro de alho do corpo, e o óleo das mãos, volto renovado para o tão querido sombreiro de palhoça que fica na frente da pousada. Uma porção de isca de peixe, e uma cervejinha, e lá estou eu hipnotizado olhando o mar. Nem adianta tentar disputar a atenção do meu filho com aquelas outras oito crianças. Estão tão felizes jogando baralho cada um com uma carta. Precisam de tão pouco para se divertir que não ouso interromper esse milagre. Nenhum game, nem computador, nem carrinhos de controle. Apenas crianças, cada uma com uma carta na mão. Não se pode interromper isso.

A maré baixa coloca os barcos a pique. Uma linda desordem a frente dos meus olhos. A preguiça que tanto é pecado, ali na areia toma banho de sol, ou beberica uma cerveja. Crianças se enfileiram a frente de uma das barracas para passar o protetor solar, e tal qual a arrancada de um rali, uma a uma arrancam em disparada ao mar.

Ao meu lado um casal jovem tira fotos de tudo. Ajustando a objetiva buscam imagens de todas as formas e cores. Inevitável puxar uma conversa, que preguiçosa, vai cortando as horas. Sem verdades, e sem grandes mistérios, o assunto flui naturalmente para algumas gargalhadas. Ninguém viu o dia passar, e em quando os ponteiros marcam cinco horas, parece que meu filho lembrou que tem um pai.

Cercado por seus novos amigos, pergunta-me se pode entrar no mar. Com aquelas condições chatas que só pai e mãe sabem propor, após o protetor, são autorizados a entrar na linha dos meus olhos. Sinais combinados para vir para o raso, ou para direita e para a esquerda, lá se vai uma molecada enlouquecida. E com a água pelos joelhos, logo dão um jeito de se divertir. Após a correria inicial, passam a pesquisar o mar com a curiosidade que lhes é peculiar. A cada siri, o grupo se curva e logo sai correndo. Um ermitão vira objeto de minutos de pesquisa. Mas não tocam em nada. Parecem compreender que o mar deve ficar como estava antes deles.

E o sol vai se pondo. Brinca com as cores e com a dança das sombras de alguns barcos. Contra a luz do pôr do sol, todos são iguais. Não há cor perto de tamanha beleza quando o sol parece querer deitar no mar. Os olhos agora estão todos no horizonte. A maré vai baixando ainda mais. Os barcos quase se deitam de lado como se desfalecessem diante do show no horizonte.  Nesse momento poucos falam, mas os que falam, o fazem baixinho, como se não quisessem interferir no que está acontecendo. E as crianças, com a água pelas canelas, nem pensam em sair do mar.

Do meio da mata, que só não encontra o mar por uma faixa de areia, vão saindo outros espectadores. E cada vez mais cores se apresentam. Não há como não perceber. É um convite para um violão preguiçoso, com os pés na balaustrada da contensão. E logo o violão reúne as pessoas que vão catando baixinho. Com os ouvidos no violão, mas os olhos no horizonte, o tempo vai passando calmo, tranquilo e sereno.  Pessoas que eu nem conheço agora são velhos companheiros de uma tarde inteira. O tempo que era tão pouco se revelou em tanta coisa. Tantos pensamentos. Tanta beleza.

Os últimos suspiros do sol são um show de tirar o fôlego. Sem que se possa controlar, em pensamento todos começam a agradecer ao paisagista de tanta beleza. Isso só pode ser obra de Deus. Mas se os céticos desafiam sua existência, então que saibam que chamo de Deus aquilo que eles entendem como Natureza. Não é hora de discutir.

É hora de agradecer essa estadia nesse mundo, e principalmente, nessa parte do mundo onde tão pouco mexemos. Enquanto o concreto devorava as nossas cidades, o verde se espalhava na Ilha, dando concessões de alguns terrenos e algumas trilhas. Se os homens são parte da natureza, não há motivo para impedi-los de estar aqui na Ilha do Mel. Deixa-os desde que eles deixem a Ilha ser eterna.

À noite, todos jantam em frente ao mar, e as conversas se amoldam ao momento. Após o jantar, o grupo de crianças me procura para que organize algum jogo. Com as mãos vazias, e sem muito a oferecer, logo eles se animam a uma rodada bem generosa de mímica. Escolhendo palavras, lá vão eles com toda sua ingenuidade tentar revelar aos amiguinhos a palavra. Mas logo os adultos também se animam. E pouco a pouco, começam a se misturar com as crianças. Começam a participar da brincadeira. Não precisa de muito tempo para que os adultos estejam levando o jogo mais a sério que as crianças. A cada ponto, um adulto vira uma criança e sai pulando ao acertar a palavra. O sorriso é democrático natural e sem limites.

E os estranhos agora sabem seus nomes. Brincam juntos com as crianças. Misturam-se com os outros adultos em meio gargalhadas. Aliás, não há mais adultos e nem há crianças. Há hóspedes. Hóspedes da pousada. Hóspedes da Ilha do Mel. Hóspedes na verdade desse mundo.

Nem vimos o tempo passar, mas faltam poucos minutos para a meia noite. Hora de descansar e de deixar que descansem. Vamos brincar amanhã novamente. Deixemos as primeiras horas do próximo dia, para que façamos dele algo muito parecido com hoje. E vamos esperar que tudo esteja aqui como estava hoje. O Sol, as crianças, e principalmente, essa Ilha. A Ilha do Mel.

É meia noite, e essa noite não teve Vento Sul.

Este texto foi publicado na Revista Expressões, da MS EDITORA,  Edição 01, de fevereiro/março de 2011.

 

 

 

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Samuel Rangel teve um de seus textos sobre a Ilha do Mel publicado na Revista Expressoes. Segundo seus leitores, uma de suas melhores obras. Confira em https://samuelrangel.wordpress.com/2011/01/19/um-dia-normal-numa-ilha-muito-especial/

A cada chegada na Ilha do Mel, a alegria de reencontrar tudo como era antes de mim, faz-me sorrir e encontrar paz. O interessante, é que a cada viagem, algo de novo me surpreende: um pôr do sol, um Tiê Sangue, uma maré baixa ou mesmo as cores da Caninana. Desta vez, o que me faz retornar novo ao meu trabalho, foi ter a alegria de ver a alegria de crianças brincando nas águas rasas do mar de dentro da Ilha do Mel.

Enquanto as via jogando água para o alto, pude reviver meus dias ensolarados nas praias quase desertas do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Ao testemunhar a facilidade da diversão, percebo que a vida é simples.

Acho que de certa forma, aquelas crianças refrescavam minha alma.

E só se pode perceber isso com tempo. Esse tempo que nos roubamos lendo notícias que nem nos interessariam. O tempo que jogamos fora atrás do dinheiro que tantos desperdiçamos. O tempo que desafiamos pintando os cabelos e esticando a pele. O tempo que perdemos ao esquecer o quão bom é ser criança, jogar água pra cima, correr espalhando um mundo de águas com os pés.

Volto grato mais uma vez pelas dádivas da Ilha da Mel. Volto um pouco mais velho e rejuvenescido. Volto pronto para o trabalho, mas sabendo que não estou pronto pra falar da minha vida. Volto pronto para escrever mais algumas páginas do livro dos dias.

E a Ilha do Mel?

Eu volto.

TERESÓPOLIS, NOVA FRIBURGO E OUTRAS CIDADES DA REGIÃO SERRANA DO RIO. UMA SÉRIE DE IRRESPONSABILIDADES.

A tragédia no Rio de Janeiro se repete. Como se repetem também as críticas à omissão das autoridades públicas. Alguns canais de televisão, sem nenhuma qualidade de programação, passam a ser os líderes de audiência. E se audiência é IBOPE, IBOPE é voto.  Tudo se repete num ciclo vicioso de horror. E se antes registrávamos os índices pluviométricos, em breve será necessário registrar outro índice macabro. Quantas serão as vidas que vamos perder em janeiro 2012?

O Rio de Janeiro passa a ser então o Rio das Tragédias de Janeiro. E a crítica fácil toma proporção em todos os veículos de imprensa:  a omissão das autoridades públicas são a causa dessas tragédias.

Há quantos anos criticamos o governo? Quantas vezes fomos às urnas nesse período? Não teríamos nós acostumado a criticar nossa própria escolha? Será que no ciclo vicioso que se repete, não estaríamos nós repetindo nossos próprios erros?

A corrupção e a falta de administração pública no Brasil é fato, cuja responsabilidade é nossa por herança cultural. Mas as tragédias que descem os barrancos da serra, contam com outras responsabilidades concorrentes.

O aquecimento global já não é mais a tese messiânica de algum cientista de óculos com lentes de fundo de garrafa. Essa realidade despenca em nossas cabeças, e silenciosa, deixa com que grande parte da população continue ausente no compromisso com a licença da humanidade para habitar esse planeta. Ainda são de preferência nacional as camionetes gigantescas com motores de 8 cilindros, que levam apenas um doutor para o escritório. Ainda é a preferência nacional cimentar o jardim para não ter que cortar a grama, criando assim a impermeabilização da grande banheira em que vivemos.

E desde que apenas alguns morram em nome de uma sociedade consumista, invasora, irresponsável e que não sabe votar, isso que aí está continuará sendo nossas notícias de janeiro.

Lembro-me de um filme de ficção no melhor estilo americano, que retratava os alienígenas como sendo uma espécie gafanhoto. Invadiam o planeta, consumiam todos os seus recursos, e partiam para outro lugar.

Gafanhotos praticam indiscriminadamente o canibalismo, e ao atravessar o oceano, descansam sobre os cadáveres que lhes servem de alimento.  Algo horrível para se pensar em proporções humanas.

Mas apenas, e tão somente enquanto reflexão fica uma indagação:

E não seríamos nós os gafanhotos de nosso próprio planeta?

Em dezembro as autoridades já falavam em prevenção, e ainda assim a tragédia não foi evitada.

Antes da tragédia…

Há nove anos a cidade já enfrentava enchentes…

Em 2010 nova enchente

E em 2011 …

FILOSOFIA CURTA E GROSSA

CAMPANHA PELA VIDA. CADA UM CUIDA DA SUA.

NÃO QUER PARTICIPAR?

COMPRE UM HAMSTER.

FILOSOFIA CURTA E GROSSA

MESMO QUE VOCÊ SE SINTA EM UM BURACO,

NÃO PERCA A FÉ.

ACREDITE!

A VIDA SE RENOVA.