SETE PARTES EM DEZ SÃO ÁGUA

Eu tentei ser sólido. Queria a impavidez dos monumentos, e a certeza absoluta do lugar que ocupo. Mas me perdi e me encontrei. Resolvi então me confessar setenta por cento água, e dela me inspirei para ser fluído. Aceitar o destino sem hesitar. Passar pelo leito da vida sem perder a arte que me foi caprichosamente pintada em telas à margem. Eu me confessei água, amante do mar, embora tenha aprendido como ancião a colocar os pés na areia.

Eu tentei ser sólido. Queria ser a força do tato, e o limite dos dedos que ousam alcançar. Mas me desacertei e me corrigi. Decidi então me confessar líquido, e do líquido me inspirei para ser livre. Aceitei meus limites com a serenidade dos lagos, que esperam a próxima torrente para transbordar as margens, quebrar as regras, e me espalhar. Tenho nas profundezas das águas os meus segredos que não haverá de conhecer a mulher que não aceite perder o fôlego. Eu me fiz úmido, nas lágrimas que engoli na minha opção de ser homem e sustentar em minha superfície o orgulho de o ser.

Eu tentei ser sólido. Queria a eternidade da pedra, e poder contundente do peso. Mas me desviei e realinhei. Percebi então que amo a eternidade do líquido, que evapora, sobe ao céu, e retorna ao chão para existir novamente. A eternidade humilde de se desfazer no ar para tornar a existir. Encontrar na ausência a inspiração para esperar, aguardar as monções como fazem os que vivem na seca por oito meses. E eu desapareço então em minhas palavras, em minhas fraquezas, e sigo com o vento que inaugura um novo aprendizado, novas ideias, uma nova maneira de lidar com minhas imperfeições e a minha falta de controle com as coisas do destino.

Eu realmente queria ser sólido. Queria que os olhos que me acertam pasmassem diante de minha inusitada criação. Encontrei-me mesmo então, foi escorrendo, neste momento com mais força, levando no peito o que eu tanto queria e admirava, deixando aos cantos o resto do que não me agrada. E me confessei água. Decepcionei a mulher que me queria eternamente eu, para ousar tentar a cada momento, buscar a mim, renovar as justificativas de minha existência.  Busco agora aceitar o inenarrável poder da água de ocupar qualquer espaço, de qualquer forma, e ali se acomodar, até virar vapor. Navegar em si mesmo rumo ao meu incontrolável e inevitável destino de voltar ao mar, de onde vim, e para onde irei, no colo da chuva, com a calma do tempo. Inevitável e inesgotável mar. Meu princípio e meu fim.

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JUCA, O SÁBADO DE SOL E A NOIVA INCIDENTAL

Riad Bark. Músico e proprietário do Ponto Final também ‘;e dono de uns dos maiores repetórios de MPB de todo o Brasil.

Juca, protagonista de tantas histórias … Passou a semana preparando-se para ir à Ilha do Mel. Havia ele se programado de tal forma, que com certeza o seu final de semana sob o céu azul da ilha seria absolutamente inesquecível. Mas Juca nunca foi muito organizado. Ao ver os documentos de seu carrinho, percebeu que eles estavam vencidos há três anos. Um pequeno deslize de Juca.

Mas Juca não desiste tão fácil. Munido de seu telefone pré-pago começou a ligar para os amigos que tinham o destino de Pontal do Sul. Não precisou de mais que cinquenta ligações e cerca de cinquenta reais em crédito, Juca conseguiu carona com seu amigo Bicudo, que sairia sexta as 18:01, quando tocasse a sirene da usina de reciclagem. Assim Juca dobrou as melhores três camisetas, as duas bermudas, uma cueca e nenhum protetor solar, pois Juca sempre achou que esse negócio de bloqueador solar é coisa pra viado.

Sexta, quando já passava das 20 horas, e Juca ainda esperava no portão de sua casa, Bicudo ligou informando que foi tomado de um mal súbito, mais conhecido como piriri, ou churril mesmo. A descida tinha ficado para sábado pela manhã. E lá se foi a noite de sexta na ilha. Indignado, pois havia lavado as havaianas com todo cuidado, Juca resolveu sair e beber o ódio, se vingar do revés. Lembrou-se das amigas baianas que estavam na cidade para lhe visitar. Foi ele então ao Bossa Nova e após uma hora de fila, resolveu abortar a missão. Buscou o sossego do bom e velho Ponto Final, onde empilhou garrafas de cerveja ouvindo a melhor MPB de Curitiba.

Juca resolveu encurtar a noite, pois queria estar disposto para a ilha no sábado. Chegou em casa por volta das duas da madrugada, porém, não conseguiu dormir. A manhã de sábado chegou devagar, e por volta das 10 da manhã, sem notícias de Bicudo, resolveu ligar pra ele. O telefone do amigo estava fora de área. E assim foi até o meio dia, quando Bicudo ligou. O amigo então deu a pior notícia que Juca poderia esperar. Ele havia passado mal a noite toda, e não tinha a menor condição de pensar em ir à praia. Nenhuma sunga de homem sério seria capaz de encobrir uma fralda geriátrica.

Juca então se irritou, pensou em chorar, mas desistiu por vergonha. Ele pensou o que deveria fazer, e num passe de mágica, o telefone tocou. Ao telefone, Paula e Taís, as baianas, estavam o convidando para ir ao Folha Seca, bater uma bela e tradicional feijoada. Juca, lembrando dos belos olhos baianos das amigas, resolveu então beber o ódio, vingar-se do revés, afogar a desventura. E lá se foi Juca ocupar uma cadeira ao lado da boa turma.

Com o papo correndo solto e leve, Juca nem viu as horas passarem, e nem passou no beiço o caldo da feijoada. Não comeu nada.  As horas voaram, e sem que se pudesse perceber como ou porque, alguém havia convidado Juca para ir ao Vox. O lugar nunca atraiu Juca, mas as pernas das amigas baianas bem que lhe interessavam. A turma toda daria seguimento ao feito na balada. Conscientes , como não é a virtude de Juca, os amigos foram se dirigindo para as suas casas, deixando para trás apenas os dois incautos. Juca e Rafael. Os melhores amigos do copo que lhe aliviam o peso. Íntimos da garrafa que tão fácil lhe esvaziam. Resolveram ir para casa quando o relógio já gritava 21 horas.

Quando Juca foi deixado em casa por Rafael, Daniele já se encontrava o esperando para continuar a festa. Juca não teve tempo de acabar com a pizza que havia congelado, nem com o frango a passarinho que sua avó havia feito. Tomou um banho de cinco minutos, mas lavou entre os dedos do pé, e embarcou no carro de Dani. No caminho, um energético parecia ser a solução para trazer o seu prumo mais quinze graus para a direita. Tomou e não deu certo. Ao contrário do que  ele esperava, o maldito líquido cafeinado não lhe endireitou o prumo, e de fato, ele ficou mais acelerado e sim perdeu a noção do prumo.

Quando as luzes do Vox se apagaram e todos começaram a dançar, Juca percebeu que estava se dando bem. Uma mocinha, belos olhos cor de mel, cabelos loiros, e corpo escultural, estava lhe dispensando especial atenção. Juca podia sentir o gosto do sucesso, e já pensava em ligar para Bicudo para contar da virada do jogo. Quando tudo parecia estar dando certo para Juca e ele quase imaginava um romance de dez anos com a loirinha, percebe ele que aqueles belos olhinhos já cuidavam de paquerar outro rapazote. O tipo bonitão, fortão, bem sucedido e culto, um páreo difícil para quem estava com o prumo torto.

Juca pode ser desorganizado, mas é um grande estrategista. Uma pena que nem sempre grandes estratégias culminem com grandes sucessos. Colocando sua cabeça tonta pra pensar, ele percebeu que deveria levar a batalha para o seu campo. Era hora dele transferir a festa para o Ponto Final, onde Juca é rei, amigo de Juarez, tem o telefone do Riad, e sempre é cumprimentado pela sorridente Marlene. Após alguma hesitação, a loirinha aceitou o convite. A Batalha agora se transferia para os campos que tão bem o general Juca conhecia. Lá, não haveria como perder.

Chegando ao Ponto Final, Juca logo mostrou para a loira que conhecia todo mundo, e que era de certa forma uma celebridade no pequeno bar de paredes verdes. A estratégia até parecia dar certo, mas o General dos Olhos de Mel não cedia. Guardava suas linhas, protegia os flancos, e sempre que ameaçado, disparava seus canhões afastando as investidas da tropa de Juca.

Juca então foi ao fumódromo, onde conhece todos, e sabe bem desenvolver sua conversa permeada pelas melhores piadas da Tribuna. A loira não ficou muito tempo do lado de fora. O General dos Cabelos Louros, parecia ter as defesas perfeitas. Juca então encontra seu amigo Piuí. Percebendo que Juca balançava todas a vezes que falava a letra “erre”, e soluçava a cada três “as”pronunciados, Piuí aconselhou Juca a abandonar a batalha. Era hora de um bom general depor as armas, e assinar um belo termo de rendição. Juca, que já dançava a música imaginária, ficou ali ouvindo os conselhos de Piuí. Mas para cada conselho, eram três os copos de cerveja que Juca arremessava contra o seu prumo. Agora, já pendia quase quarenta graus para a esquerda.

Mas há duas verdades no bar, que Juca viria a confirmar. A primeira?  A bebida sublima o íntimo da personalidade de cada um. O bêbado que tem tendência violenta arruma briga. Quem tem tendência depressiva chora. Quem pensa demais na vida vira filósofo. E Juca? Ah pobre Juca. O mais romântico dentre os românticos.

A segunda verdade, é que nunca, jamais, em hipótese alguma, sob nenhum pretexto, nem que a vaca tussa, nem …., qualquer pessoa pode desafiar um bêbado. Piuí não se atentou à segunda regra, e pouco sabia desse lado romântico de Juca. Com a intenção de fazer Juca esquecer do General de Corpo Escultural, Piuí fez os olhos duplicadores de Juca olharem para Priscilla. Quando Juca se deu conta da beleza de Priscila, ele a duplicou. Ao ver a flor que Priscilla trazia no cabelo, Juca se viu em frente ao jardim da mais rara beleza. Ao perceber tão formosa mulher, Juca quase se aprumou por três segundos. Mas Piuí cometeu a maior heresia que se pode cometer com um amigo bêbado. Piuí disse: “Era uma mulher daquela que você deveria casar. Duvido que você tenha coragem de pedir aquela mulher em casamento. Você não é homem pra pedir ela em casamento!” E o silêncio tomou conta do fumódromo por dois minutos. Juca ficou pensando.

Juca, tomado por toda a coragem que a Ambev engarrafa em uma hora, colocou-se a andar em direção à Priscilla. Foi prontamente seguido por uma comitiva que já ria do estado de Juca, ele entrou no bar quase que na direção exata. Conseguiu corrigir o rumo, balançou um pouco, mas chegou até Priscilla. Na frente dela, colocou-se de joelhos e disse: “Eu estou bêbado, mas não estou errado. Casa comigo mulher?” Juca nem percebeu que estava ao lado do general de defesas intransponíveis.

E para a surpresa de todos,  aquela flor de mulher, aquela perfeição de curvas, cores e cheiros, simplesmente resolveu responder: “Sim! Eu aceito!” Inacreditável. Após um tempo em que os membros da comitiva silenciosa tentavam acreditar, todos começaram uma grande festa. Então voltaram com os noivos para o fumódromo, onde Juca se colocou de joelhos mais tantas vezes à frente de Priscilla. As máquinas fotográficas e celulares não davam trégua para os flashes. Juca estava feliz demais. Alguns até disseram ter visto a noiva derramar algumas lágrimas. O cunhado de Priscilla, voluntarioso, logo se propôs a organizar o churrasco no domingo, onde Juca oficializaria o pedido aos pais de Prisicilla. Juca aceitou prontamente e se dispôs a renovar o pedido na frente dos futuros sogros.

Quando eram quatro horas e a madrugada já dava seus últimos suspiros, a noiva ajuizada resolveu se recolher. Despediram-se e seguiu ela na companhia de sua irmã e seu cunhado rumo ao lar feliz. Juca, também feliz, resolveu dar prosseguimento ao feito e comemorar o projeto de casório. Depois de reclamar com o dono do bar a inexistência de uma champanhe que atendesse aos noivos, voltou para a cerveja que nem lhe era muito bem vinda. Foi assim até as sete horas da manhã, quando Gilney, amigo de verdade de Juca, conseguiu convencer-lhe a ir para casa. Assim foi, sem que Juca esquecesse de se munir da última garrafinha da maldita cerveja.

Enquanto bebia a última cerveja, Gilney falou a Juca: “Rapaz. Você está feio! Que porrete heim? Mas tenho que te dizer uma coisa. Você até perdeu o bom senso, mas o bom gosto não. A mulher é linda demais! Como é que você conseguiu achar ela? Você está enxergando bem ou foi sorte?”

Juca respondeu: “Eu só enxergo duas de cada. E eu sou bêbado mas não sou idiota. Então é fácil. Assim, por exemplo. Eu sei que aquelas duas são bonitas e aquelas outras duas não. Entendeu?” Com essa chave de ouro Gilney decretou o encerramento da noite, e conduziu Juca para o seu lar. Deixou Juca no portão, e ele entrou cambaleante se apoiando no carro que ajuizadamente tinha deixado em casa.

Ás onze horas da manhã do domingo, Juca é despertado por um telefonema de número não identificado. Ao atender, a surpresa. Era o cunhado de Juca. Do outro lado vem a chamada: “Seu Filha da Puta! Está todo mundo aqui te esperando e você não vem?” Juca despertou com a cabeça tonta. Sem saber o que dizer, se é que há algo que se possa dizer num momento desses, desligou rapidamente o celular. Ficou ali perplexo e perambulando pelo quarto, Juca começou a repassar os acontecimentos do dia anterior. Quando Juca se deu conta de que estava noivo, o estômago embrulhou, as mãos começaram a suar, e as pernas bambearam. Juca foi obrigado a abraçar a patente e devolver a cevada que havia acumulado.

Voltou pra cama, mas o sono não voltou para Juca. Enquanto repassava os flashes da noite romântica, ele apenas pensava: “Meu Deus. O que vou fazer agora?” Sem que a resposta aparecesse, Juca não viu as horas passarem, e quando já eram quase duas horas da tarde, Juca ouviu o telefone tocar. Tremendo, olhou para o display que anunciava “número não identificado”. E agora? Com a voz embargada Juca atendeu. Do outro lado da linha, Juca ouviu uma voz doce e compreensiva dizendo assim: “Amor, você está bem? Você não vem? O que aconteceu? Não está passando bem amor?” Juca percebeu ali uma grande saída, e resolveu usar essa tática, pedindo que ela avisasse os pais e a família que ele estava com uma indisposição estomacal. Ela atendeu ao pedido, apenas solicitando a Juca que ao final da tarde, passasse lá apenas para ser apresentado aos pais dela.

Juca desligou o telefone sentindo-se o ser mais desprezível da face da terra. Não era possível. Como ele poderia fazer uma coisa daquelas com tão doce criatura. Deitou-se novamente na cama e se pôs a olhar para o forro implorando para que a viga do teto lhe partisse a moleira. “Que ser infeliz, desprezível, baixo, rastejante, repugnante sou eu?”

As horas se passaram e Juca não as viu até o final do jogo de domingo, único momento em que ele conseguiu pensar em outra coisa. Quando seu time fez um gol, ele recebeu a terceira chamada do número misterioso. “Oi amor. Você melhor?” Juca então resolveu dar mais veracidade à sua história. Foi ao banheiro e em meio a sons de quem não quer mais nada no estômago, disse a ela que não teria condições de comparecer ao próprio noivado. Pediu desculpas e pediu que ela explicasse tudo aos parentes. Ela, compreensiva e carinhosa, entendeu e aceitou a missão, porém, ofereceu-se para levar Juca ao hospital. Juca viu a saída ideal para a proposta. “Amor eu não quero que você me veja nesse estado. Deixei que eu resolvo isso por aqui.”

O telefonema encerrou com palavras de carinho, apoio e compreensão. Priscilla era mesmo a mais doce das criaturas, e ainda tinha a imagem da mais bela das orquídeas.  Juca se pôs a se criticar. Tinha a vontade de ligar para ela e contar tudo. Mas como ele poderia dizer para tão doce criatura, que havia pedido ela em casamento porque estava bêbado? Isso acabaria com a autoestima da mais segura das mulheres. Imagina Priscilla, a doce. Durante o resto do dia e a noite toda ficou pensando no que faria. Criado nos mais altos padrões de honra, Juca então ao final da madrugada de segunda-feira decidiu que iria dar efeito ao pedido. Agora, já que tinha feito tal canalhice, teria ele que se redimir levando aquela linda criatura ao altar.

Na segunda-feira o telefone não tocou. Ele não tinha o telefone de Priscilla, pois seu Motorola havia feito o favor de dispensar a agenda. Ele passou a procurar a menina no Orkut, Facebook, Twiter, e em todas as outras baboseiras sociais que existe. Cadastrou-se até no Par Perfeito para dar um jeito de encontrar a mocinha. E nada. Assim foi também na terça, quarta, quinta, até que sexta, Juca se colocou em belos trajes e voltou ao local do crime. Chegando lá, perguntou à Marlene se ela tinha o telefone da noiva. Perguntou a tantos outros, mas ninguém tinha. E Juca, esse cafajeste arrependido, o noivo furão, colocou-se a tomar todas as cervejas que podia.

Quando eram quase três horas da manhã, o bar parou, a música silenciou, e tudo ficou em câmera lenta. Priscilla, a mais bela entre todas, entrou no bar sorrindo, e foi até Juca. “Oi. Tudo bem? Melhorou?

Juca então disse: “Sim amor. Estou melhor. Desculpe por não ter ido no domingo. Eu estava muito mal”

Ela respondeu: “O que teve domingo? Não estou sabendo? Você passou mal?”

Juca não entendeu a resposta. O Cunhado também não entendeu, e muito menos Priscilla. Ela então lhe disse: “Ora Juca. Eu não levei a sério. Capaz que eu ia levar a sério um pedido de casamento de um pudim de cachaça no meio de um bar.” Ela riu e o cunhado também.

Mas Juca, sem entender nada, perguntou se eles não ligaram para ele no domingo do noivado. Eles riram e disseram que logicamente não iriam ligar. Eles levaram o pedido de casamento na brincadeira como só poderia ser.

Juca ficou sem entender novamente: “Se vocês não me ligaram, quem foi que me ligou então? Eu recebi uma ligação do seu cunhado e duas suas no domingo, cobrando a minha presença no nosso noivado.”

“Mas que noivado? Nós não ligamos pra você seu louco. Pare com isso. Você acha que alguém aqui poderia levar seu pedido a sério?” Disseram quase uníssonos a ex-noiva e o cunhado.

Nesse momento, Juca repetiu a grande pergunta que surgiu avassaladora em sua cabeça: “Mas se vocês não me ligaram, quem foi que me ligou então?” Depois de um som afogado, um barulho estranho, uma tosse, e uma gargalhada, Juca viu Piuí se contorcendo em risos. Ele simplesmente não conseguia se controlar.

Quatro semanas depois, Piuí saiu do hospital, mas não tem ido mais no Ponto Final. Priscilla voltou ao seu doutorado no exterior. O cunhado confirmou que vai ser pai novamente. Gilney ainda é o melhor amigo de Juca. E Juca?

Juca parece que foi no último final de semana para a ilha, mas foi de ônibus, pois Bicudo ainda está com aquele piriri. Ao menos é o que se tem notícia.

FOTO! O QUE É A FOTOGRAFIA?

ILHA DO MEL – A TRISTEZA DE DEIXAR PARA TRÁS

Deixei a ilha desta vez com uma tristeza nova, diferente. Não só a tristeza de quem parte, mas a tristeza de que parte deixando um pedaço de si para trás.  Como se fosse um rápido final de semana, os vinte e cinco dias de Ilha do Mel passaram voando para mim. E justamente pra mim que a tanto tempo tenho com a ilha um certo romance.  A bordo da barca para Paranaguá, o trapiche foi ficando pequeno. Os sombreiros da Por do Sol iam se distanciando no ritmo da escuna. A velocidade da barca parecia acelerar as lembranças destes dias que passei ao mar, ao lado de boas companhias, convivendo com os nativos, conversando com todos que encontrei pelas trilhas.

Eu bem conheço essa vida de cidade grande, que depois que te envolve, cria um emaranhado de compromissos sem sal, mas tão velozes quanto o pensamento. Parece que o concreto da cidade tem inveja da areia da ilha. Enquanto te consome, consome o seu tempo, como se a ilha fosse ficando cada vez mais longe, apagando de nossa memória a lembrança de que o paraíso é logo ali, ao pé da Serra do Mar, pouco mais que cem quilômetros de minha morada. Toda a tecnologia e conforto que a cidade me proporciona, parecem tentar me embriagar de ilusões, distanciando-me do tão básico desejo de sentar-se em paz e ser feliz sob o por do sol. E nesse nosso esquecimento, nasce o abandono de todo o povo da ilha, que padece por falta de coisas que para nós são tão naturais, ao passo que estamos tão longe da natureza. 

As águas da baía parecem aquietar-se diante do anúncio do abandono. As únicas ondas que vejo, são as marolas da barca que me leva, e elas ficam para trás sumindo na imensidão das águas. E se na ilha eu tanto conversava com todos, na barca o silêncio só é quebrado pelo ronco do motor diesel que a empurra rumo à nossa loucura. Ah essa Ilha do Mel, que nos adoça os olhos e a alma. Ah essa Ilha do Mel, do por do sol dourado e deslumbrante. A ilha das trilhas ensombradas, que levam das Encantadas à Ponta do Nada. A ilha do Farol que deveria ser o norte de qualquer um que navega pelas águas turbulentas dessa vida louca, estressante, consumistas e sem sentido.

Lembrei-me então do amigo André, companheiro de caminhadas pela ilha, e de boas cervejas também. Após André trilhar o Caminho de Santiago de Compostela, e ainda ter pernas para ir até o Fim do Mundo onde o Atlântico coloca a Espanha em seu lugar, aprendeu que carregamos muito peso nesta vida que não faz nenhum sentido. A caminhada de quase mil quilômetros faz qualquer caminhante reavaliar o tamanho do garfo, e as mangas da jaqueta. Para que tanto peso nesta vida?

 E eu agora embarcado rumo ao alto da serra, de malas gordas e cheias de bobagens, tenho certeza que serei seduzido a agregar ainda mais peso para esta vida. Encontrarei encanto em alguma gravata cara, que serve tão somente para cobrir os botões da camisa que mal sei entender. Sentido mesmo fazia a dupla que fiz com o violão dos amigos na beira do mar. Sentido mesmo fazia todo aquele silêncio molhado pelo céu vermelho que dá boa noite ao Tie Sangue. Sentido fazia ver as crianças correndo livres por uma praia que sequer sabe o que é moda, e tantas vezes, não dá a menor importância para o que acontece além do mar. Parece não se importar com as coisas que acontecem no continente.  Por isso, enquanto me afasto, penso no conselho que poderia dar ao novo visitante. Quando resolver visitar a Ilha do Mel, não se preocupe em trazer cargos, títulos, ou coisas que o valham.  Na ilha, você só carrega o primeiro nome, e após algum tempo, haverá de ter algum apelido. Alguns me chamam de cantor, outros relembram de outras passagens minhas por aqui, e até me reverenciam com o título de doutor. Quem vem do mar, e deixou o continente pra trás, assusta-se com a barba branca que deixei de fazer. Meus amigos brincam com minha aparência desleixada e a pele queimada do sol e com o sal do mar. Por isso brincam e me chamam de Velho do Rio. Mas na Ilha do Mel este apelido não me incomoda. Até gosto do apelido que lembra o personagem sábio e enigmático de uma novela antiga. Oxalá a Ilha do Mel me presenteie com tanta paz na alma.

A barca então se despede da Ponta do Nada, da Ponta Oeste, e a Ilha some dos meus olhos. Depois se vai a Ilha das Peças, e ainda fica na memória as noites de conversa que tive com os moradores da ilha e com meu filho. Lembro-me das oportunidades em que tivemos que usar do nosso barco pra fazer ambulância para a mulher grávida que se sentiu mal, e o músico que pensava estar enfartando.  O povo da Ilha do Mel não tem por eles qualquer socorro. Pedro, o bom barqueiro que esteve comigo nestas oportunidades, que sabe riscar as águas escuras da noite da baía, disse-me com seu jeito simples e sábio: ”Aqui somos uns pelos outros. Se não cuidarmos da nossa gente, ninguém cuidará de nós.”

Cortando o manguezal da baía de Paranaguá, a cor das águas tranquilas anuncia que estamos cada vez mais longe das águas claras da Ilha do Mel.  As lembranças continuam a me causar uma nostalgia distante do dia de ontem, em que eu me apaixonava pelo sorriso da pequena Piedra, que sorria franzindo o nariz, enquanto repetia suas peripécias na água. Piedra, no começo reticente, acabou pisando no mar para não querer mais sair dele. Com seus dois aninhos, rendi-me à sua simpatia e carinho para descarregar a máquina para colher as fotos da menininha.

Fernanda e toda sua simpatia, amiga que divide comigo não só a ilha, mas a data do aniversário. Pedro, garoto fantástico, inteligente e educado, que me socorreu tantas vezes no inglês em minhas conversas com Alex. E tantos outros que me fizeram companhia nestes dias todos.

Ao lado de meu filho, amigo e companheiro de caminhadas e gargalhadas. Pequeno guri que já demonstra sua paixão pelo lugar, e que às vezes quebra a regra de dormir cedo para ficar comigo olhando para o mar enluarado durante o começo da madrugada. E assim foram esses dias, com tantas conversas que nem os vi passar. Conversas com Cheida sobre as necessidades do Povo da Ilha do Mel, de onde colhi alguma esperança de dias melhores para aquele povo. Uma boa caranguejada para temperar as palavras. Das conversas com os cariocas que se deslumbravam com as belezas da ilha. E uma cerveja para soltar os verbos. Das conversas com a família Boccia, que entre uma caminhada e outra, fazia uma perfeita e divertida batalha em suas partidas de Uno.  Amilton, da Reset, Willian da Canvendishe, Marcelo da Los Hermanos, e tantos e outros homens do mar que “apoitavam” seus barcos na pequena enseada que encerra o canal em frente a pousada Por do Sol. Amigos queridos que se dedicavam a ouvir meu violão e a minha voz, já rouca de tantas canções da Banda Blindagem.  Das conversas com Fifi, Solange, Genésio, Alex, Tico, Renê, Michela, Naum, Dona Branca, e tantos outros funcionários da pousada. Do bate papo rápido com Fabinho da Parada Obrigatória. Tudo me fez viver tão intensamente esses dias na ilha, que ouso a pensar nos meus motivos que conduzem a subida da serra.

A companhia ilustre de Alex Barr, um amigo inglês que se dedica agora aos primeiros aprendizados da língua portuguesa. Eu e meu inglês tosco passamos por momentos de aperto na tentativa de comunicação, e quebrar a solidão do bom rapaz, mas ainda assim, parecemos ter conquistado um novo amigo do outro lado do Atlântico. Lucia, uma argentina engraçadíssima que nos fez companhia em agradáveis momentos, sempre ponteados por risadas gostosas e leves, como devem ser os momentos na ilha. Os alemães, franceses, e suecos que se revezavam sob o sombreiro escutando atentos a MPB que ousei lhes apresentar.

Enquanto rumo para o alto da serra, relembro dos momentos dedicados a observações dos pássaros de beleza indescritível. A odisséia para conseguir a foto do Tie Sangue. O arco-íris nas penas da Saíra Sete Cores. O Pica-pau de cabeça vermelha. Lembro-me do encanto que me causavam os vagalumes que enfeitavam as árvores noite a fora, como se fosse um Natal simples. Admiração compartilhada pelo amigo londrinense Henrique Galindo e sua esposa, que com cuidado capturou um para algumas fotos antes de soltá-lo novamente.  O lagarto preguiçoso e exibido que posava para a foto me causa um sorriso discreto. Penso agora que foi pela sua preguiça que deve ter perdido a longa calda. Mas como na ilha quase toda preguiça é perdoada, a natureza cuida já de regenerar o folgado. Embreei-me nos caminhos de dentro para a fortaleza em busca de uma foto de alguma caninana ou jararaca, mas não as encontrei em nenhum momento. Acho que andam para longe das trilhas. Porém, não precisei andar mais do que quatrocentos metros para flagrar um filhote de jacaré, que para mim, acaba com o mito e confirma a presença deles na Ilha do Mel.  Os colibris do restaurante ao lado da fortaleza, de beleza negra, mas com um espírito profundamente brigão. Observar orquídeas de beleza fantástica e DNA específico, e até mesmo, ter a oportunidade de encontrar pela primeira vez o abacaxi vermelho que tem na ilha e que se avizinha com as bromélias que se penduram no barranco da Ponta do Nada.

Aos que vinham do continente, acelerados como sempre é do outro lado da baía, apresentei o meu copo de silêncio. O primeiro copo de cerveja, na Ilha do Mel, deve ser bebido em frente ao mar, em profundo silêncio, até que a vontade de falar desacelere. Até o que espírito se acalme. E quando o visitante então diminui o ritmo, deve se sentar a nossa mesa e dividir de nossa calma. Da calma que só a Ilha do Mel ministra aos adoecidos da cidade.  As visitas recebidas da família Milleo, do André com seus jetskis, da amigas Karin, Paty, Daniela, Ana Paty, Ana, Jaqueline, Andreia, Tati e Yara também causam saudade de nossas gargalhadas largas pelas sombras das trilhas. As caminhadas na praia à luz da Lua, e as cervejas tomadas com preguiça na sombra do jardim da pousada, onde Luciana me disse que dos quinze anos que está vivendo na Suíça, o que mais lhe faz falta, é o abraço único dos brasileiros, solitários na palavra saudade. É bom conhecer gente que tem saudade, e ainda encontra tempo para sentir e falar dela na beira do mar. Da praça da barca, mando um abraço de espírito para Luciana, que muito mais rápido que minhas palavras, atravessa o Atlântico em menos de um segundo.

E sem me dar conta da hora e meia que se passou, a Barca chega ao antigo atracadouro de Paranaguá. Ainda com os olhos atentos a toda beleza que mereça uma foto, vejo a minha frente enormes gaivotas gritalhonas enfeitando o alto de um prédio colonial. Pensei em tirar uma foto, mas voltando pra cidade, já começo a ter medo de empunhar um equipamento tão caro. Estou me adaptando ao absurdo. Passei tantos dias na ilha, caminhando à noite, sem sequer trancar o quarto, e lá, não tinha o menor medo de sofrer qualquer furto, muito menos ser vítima de um assalto. Esse mundo canibal parece estar me pegando novamente. Passo a largos passos pelas fachadas coloridas de Paranaguá sem tirar qualquer foto, com a máquina muito bem escondida dentro da mala. E ao sentir o peso da mala, relembro do aprendizado de André. Quanto peso desnecessário eu estou carregando?

Na rodoviária de Paranaguá, pareço encontrar a fronteira entre o litoral e a fria Curitiba. Em uma rodoviária lotada, pouco se conversa. As conversas se limitam aos telefones, de onde também as pessoas buscam cabisbaixas ao acesso à internet. Já não há mais ambiente para conversas preguiçosas, e nem brincadeiras de criança. Todos ali se ocupam de ser o adulto chato que sou durante o ano todo.

 

Embarco no ônibus ao lado de uma senhora que carrega o filho de cinco anos no colo. Tento uma conversa que não progride. Ofereço salgadinhos que são dispensados pelo menino. Estes não são iguais a aqueles que me cercam na praia pedindo para tirar uma foto. Estes não me chamam nem de cantor, nem de doutor. Aqui, sequer se preocupam em me chamar. Parecem realmente não precisar de mim. De fato não precisam. Em suas malas abarrotadas, carregam as bobagens que os fazem pensar que estão prontos para a viagem da vida. Aqui parece não imperar a regra de que somos uns pelos outros. Há algo mais parecido com o famoso e lamentável “cada um por si”.

Ao longo da estrada, o acesso à internet volta no celular, e como não encontro nenhum outro motivo para passar o tempo, começo a ver as mensagens do facebook. São muitas, e quase todas elas se limitam ao “curtir” do facebook, assinalado nas fotos que tirei na Ilha do Mel. Esse povo da internet nem tem tempo de comentar. Estão mais ocupados em fazer suas malas.

Ao abrir acidentalmente as fotos, começo a encontrar a beleza que deixa saudade. A extasiante Ilha do Mel está ali. Tentando me concentrar em meus bons pensamentos, sou imediatamente levado a pensar nas pessoas que moram naquele paraíso. Nos amigos que deixei para trás. João Luiz, o simpático “carrinheiro” que dispara pela areia atrás do seu ganha pão, disse-me com certa tristeza algo que me incomodou, e agora fica ecoando em minha cabeça já tão viajante.

Ele me disse que a Ilha do Mel é lembrada durante os festejos do Ano Novo, no Carnaval, na Páscoa e no feriado de Sete de Setembro. Sem tanta ênfase, até  pode-se dizer que ela é bem visitada nos três meses de verão. Em todos os outros dias intermináveis , longos meses que se arrastam, resta ao solitário povo da ilha a sua pesca da Tainha. Nem uma galinha em seus quintais é permitida por questões ambientais. Carne, somente as que o mar trás. Seja a carne que fica nas redes, ou mesmo aquela que as barcas de carga trazem, não há outra alternativa. Na ilha, longe de um médico, esporadicamente visitada por um dentista, está a Escola Municipal de Nova Brasília, cuja administração, ou falta dela, não se sabe se deve imputar ao estado ou ao município. Nela estuda minha afilhada Milena, e quem sabe esta ligação seja o que me fez olhar para a ilha com mais atenção.

Enquanto o ônibus perde a velocidade na subida da serra, e eu perco a vontade de voltar para Curitiba, penso como tão bem coube a última aula de português que tentei dar ao inglês. Eu lhe falava exatamente de saudade. E lhe dizia que tal palavra, só existe em nossa língua. Depois de nos esforçamos por um bom tempo para tentar encontrar uma tradução para saudade, desistimos e voltamos às coisas da cerveja.

No último dia, quando se encaminhava para o trapiche, o amigo Alex embora não tivesse em sua língua uma palavra para descrever saudade, ao olhar para trás e despedir-se dos funcionários da pousada, deixava bem claro que esse seria o seu sentimento após os dias em que esteve por lá com nossa grande família.

Desembarco em Curitiba sentindo o frio da cidade. No táxi consigo a conversa típica dos engarrafamentos. Olhando desacostumado para as luzes do carro que não vejo na Ilha do Mel, passo os instantes do caminho lembrando, relembrando, mas preocupado mesmo, é em não esquecer.  E se a Ilha do Mel é inesquecível, que o seja também o povo que lá está.   

E eu, parado em frente ao portão de minha casa, que tanto me esforcei para ensinar ao Alex o significado da palavra saudade, agora o redescubro nessa vontade silenciosa de ter com a ilha mais do que alguns meses de amizade. Essa vontade de ter na ilha um norte, uma família de amigos, e um mundo de natureza floreando dias inesquecíveis, que com certeza, sempre deixarão saudades para quem viu o Por do Sol nas areias de Nova Brasília

 

OPINIÃO – Penso que preservar a natureza da ilha, exige também que cuidemos da nossa própria espécie. Estas pessoas estão lá há décadas. Estas pessoas que rastelam as trilhas em nossos períodos de amnésia urbana. Essas pessoas que empurram os carrinhos de lixo durante nossa estadia. Precisamos cuidar dessas pessoas não só para cuidar de nosso jardim paradisíaco no sul do Atlântico. Precisamos cuidar destas pessoas inclusive para garantir a elas o que a constituição lhes deveria garantir. Tentar dar a elas mais motivos para sorrir, e para que se orgulhem de morar no paraíso. Será que por ter tão poucos eleitores a Ilha do Mel não desperta o interesse dos governantes? Pode ser que sim, mas creio no pequeno poder destas palavras. Creio que fazer pensar é um direito de todos, e o direito de pensar, na realidade se avizinha de uma obrigação.

UMA JANELA PARA NOVA YORK

Quando ele chegou em casa, entrou no quarto em silêncio. Ela estava dormindo e ele não queria acordá-la de seu sono tranquilo. Enquanto trocava de roupa, ela abriu os olhos e perguntou onde ele estava. Ele disse que havia ido com os amigos no Ponto Final. Havia aproveitado a noite para matar a saudades de tocar seu violão. Ela então argumentou que ele havia falado que não iria sair. Por qual razão ele não havia dito.  Ficaram em silêncio, como só o silêncio serve para as perguntas sem respostas, tão comuns nas coisas do amor.

Quando ele se deitou na cama ela ainda o olhava com certa tristeza. Ele então perguntou a ela se era falta de confiança. Ela disse que não. Ela estava apenas sentindo uma profunda solidão. Como sempre houve entre eles, o silêncio agora era o de compreensão, de solidariedade. Ele prontamente conseguiu se colocar no lugar dela.

O silêncio foi interrompido por uma voz companheira, que dizia a ela para procurar seus amigos, seus colegas de faculdade. Ela deveria procurar sair para encontrar alguma diversão, alguma forma de fugir dessa solidão. Algumas lágrimas escorreram até a renda do travesseiro. Ele percebeu que a situação era muito triste.

Com o mesmo violão que havia estado no palco pouco antes, ele então passou a tocar para ela uma harmonia simples, mas com profunda tranquilidade. Como fazem os menestréis, ele passou a cantar o que lhe vinha a cabeça, até que alguns versos tomaram forma. Promessas de companheirismo, e de um amor solidário e presente independentemente de qualquer coisa. Durante uma hora, as canções preferidas dela foram tocadas e cantadas. Algumas brincadeiras entre uma e outra, misturavam-se a declarações de amor.

Então ela deixou que os cantos da boca manifestassem um discreto sorriso. Que lindo, disse ela. Todo o clima pesado e triste se foi embora com cada nota, cada palavra, e a cada verso cantado por ele. Como havia sido nos últimos meses, eles se deitaram novamente se olhando. E em silêncio pareciam jogar. Quem seria o primeiro a fechar os olhos? Sem nenhum vencedor, dormiram de frente um para o outro.

No dia seguinte, quando ele acordou, ela não estava mais na cama. No canto direito da tela do computador uma mensagem: “Obrigado meu amor. Obrigado por me compreender e por me fazer companhia mesmo tão longe. Para alegrar seu dia, deixo você com as imagens da neve aqui em Nova York. Aproveite bem o verão de Curitiba. E diga a todos que em breve estarei por aí. Um beijo grande.”

Ela havia colocado o computador sobre o parapeito da janela para que ele pudesse ver a neve caindo em Nova York.

Enquanto via a neve caindo em Nova York, pensava como era difícil essa distância, e como era difícil pra ela estar tão longe de sua família e de tantos amigos. Ele então, como havia combinado no embarque no Afonso Pena, deixou o messenger ligado e foi trabalhar.

Com uma janela aberta para Nova York, para ela, por ele, pela distância, pela solidão.   

Apenas uma janela para Nova York.

 

A gravação do áudio foi postada no youtube no seguinte endereço.

http://www.youtube.com/watch?v=0a0vmnTaO3I&feature=youtu.be

ILHA DO MEL, TIE SANGUE, E MINHA BUSCA PELA FOTO IDEAL

Uma dos mais belos caprichos da Ilha do Mel, sem dúvida, com um especial toque de Deus, é o Tie Sangue, chamado por alguns nativos de Tira Sangue. Uma belíssima ave com um tom de vermelho único, que tanto quanto bela, é arredia, arisca, e tão logo sente a presença humana, trata de bater as asas negras e fugir para longe de nossa visão.

Com o desejo de dividir com o leitor a bela imagem desta ave maravilhosa, muni-me de minha câmera para tentar capturar um flagrante deste capricho divino. Mas parece que o nosso amigo, além de arredio, também não gosta de fotos. Passou pela figueira no começo da manhã, e embora minha atitude tenha sido extremamente ágil, tão logo coloquei a objetiva 55-250 na máquina, o malandro sumiu para o meio de todo o verde que nos cerca. Ao lado de meu filho, não pude esconder a frustração, de ver ir embora a tão sonhada foto.

Mas um pai não pode ministrar jamais uma aula de desistência para um filho. Se há algo que temos que deixar pra eles, é exatamente o símbolo da persistência, como se tal fosse o signo estampado em nossa testa. Embora esse seja um paraíso natural, algumas benesses da tecnologia nos são disponíveis. Embora ilhado, não estou isolado. Pensei então em todos os documentários que já vi sobre pássaros e pesquisadores. Lembrei-me que uma das formas de atraí-los é fazer tocar o som de seu canto.

Com a internet bem conectada, pesquisei no youtube, e de pronto encontrei o resultado da pesquisa “Canto do Tie Sangue”. Cliquei e lá estava o som do belo animal. Com os programas disponíveis no notebook, baixei o canto, e editei amplificando o som. Com o notebook então, fui até a Praça da Abelha, e num dos bancos de madeira, que ladeiam a trilha que vai da Por do Sol para a Parada Obrigatória, sentei-me disposto a ficar por horas esperando o fujão vermelho.

Para minha surpresa, antes mesmo que eu pudesse ouvir tocar inteira a trilha sonora gravada, lá estava o Tie se aproximando. Primeiro numa árvore, e depois noutra, mais perto, até que cerca de cinco minutos depois, ele estava a pouco mais de 25 metros de nós. Meu filho em silêncio, com os olhos vitoriosos de quem ajudou a armar uma espécie de “arapuca do bem”, estava saboreando a felicidade de não desistir.

O Tie colocou-se contra o sol, e como tal visita ilustre já era uma benção, não hesitei em descarregar a máquina com a velocidade do meu coração competente. Assim, consegui estas fotos que publico agora para que o leitor conheça mais essa benção da Ilha do Mel.

Com a partida do meu filho que foi agora para os carinhos da mãe, hoje retornei a trilha. Como havia encontrado outro canto do Tie, no mesmo lugar, com o Windows Média Player tocando, ali me sentei. Hoje fiquei por horas e nada. Pela trilha de pouquíssimo movimento, já passaram os amigos recolhendo o lixo, os pescadores com suas redes. Carlinhos, o garoto da foto triste sobre o barco, veio hoje sorridente me visitar. Disse-me que eu deveria fotografar o Pica-pau que anda fazendo buracos na casa dele. Também sugeriu-me as fotos do jacaré do rio da Ponta do Nada. E ali ficamos horas, sentados, conversando. Mas o Tie, esse não veio nos brindar com sua conversa. Com a bateria do notebook acabando, percebi que era hora de fechar o Player e abrir o Word, para poder dividir com os amigos leitores esse momento, essas fotos, e essa beleza toda da sempre amada Ilha do Mel.

Mas aprendendo as lições que dei ao meu filho, não vou desistir de encontrar um melhor ângulo, afinal de contas, das lições que ensinamos, a melhor parte é aquele aprendizado que guardamos pra nós, ou simplesmente, relembrar as lições que tivemos.