UM DIA DAQUELES, O LADRÃO SUICIDA, E AGORA SOU QUASE PAULISTANO.

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I – O CAFÉ, O GORDO E O ELEVADOR

São Paulo, “terra da garoa”, e assim o dia cinza e chuvoso chegou. Eu já havia despertado no meio da madrugada, e remexia os livros de doutrina e jurisprudência para fazer a sustentação oral do Tribunal de Justiça. Eu estava ali pela segunda vez, pois duas semanas antes eu recebia a notícia do adiamento do julgamento apenas na hora que o mesmo ocorreria.

Com os olhos vermelhos, de quem rompeu a madrugada desta vez sem cerveja, desci ao belo salão do café do hotel. Ali, após um circuito pela mesa posta, separei as mais belas frutas, os cereais, e os frios que eu acomodaria na broa preta. Com uma manteiga de aviação salgada, eu pretendia almoçar as oito horas da manhã. Deixando o pratinho sobre a mesa vou até a máquina de café fazer o meu pingado as avessas. Café na xícara, as gotas de leite que eu precisava para romper o negro do café me abandonavam. Após chamar o atendente, por uma, duas, ou três vezes, ele abriu a garrafa térmica e derramou o leite sobre o meu café. Muito mais do que eu queria, mas …

Quando giro o corpo e aponto na direção do meu “breakfast“, vejo em minha mesa, sentado em minha cadeira, com a boca cheia das minhas frutas, o “rei momo” de algum carnaval americano. Com as velozes bochechas vermelhas, ele devorava tudo que eu havia colocado ali. Tentando entender a inusitada cena, cheguei a passar os olhos pelo meu terno, para saber se ao menos pareciam com os trajes do metre. Impossível! Ele usava um terno preto com gravata borboleta. Mas que gordo canalha esse?! Será que meu cavanhaque teria lhe confundido com a imagem do buço da sua santa mãe? Seja como for, perdi a vontade de almoçar prematuramente. Com um olhar que fuzilou o gordo (e acredite que daquele tamanho, ninguém erraria um tiro), tomei rapidamente três xícaras de café. Com cara de gorila saí para a frente do hotel, fumar meus calmantes de nicotina e alcatrão. Na esquina, eu via os últimos suspiros da balada alternativa que atravessou a noite próximo ao meu pernoite. Eles também passaram a noite acordados.

Ali eu me detive um pouco, olhando as longas pernas das garotas de longa experiência que se aglomeravam diante da balada. Girei lentamente o corpo enquanto sorria com a cena. São Paulo é realmente a cidade que não para. Vou ao elevador já sem qualquer lembrança do “gordacho” que me roubou o café, e quando a porta do elevador abre, a imagem dele ressurge redonda e bochechuda na minha frente. Fuzilei mais alguns tiros com o olhar, sem errar nenhum. Entrei no elevador, e quando a porta fecha, percebo que o flatulento gordo havia deixado no ar os resquícios, em cheiro insuportável, de todas as frutas e frios que eu havia separado. Mas que gordo mais … mais … mais … mas não adianta. Tive que conviver com a devolução indesejada até o décimo andar. Lá desci e fui correndo para o banho me livrar das frutas e dos frios que eu não queria.

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II – O RELÓGIO, O VETERANO DA ADVOCACIA, E O TRIBUNAL

Desembarco do táxi sob os risos do taxista, que já profetizava que eu perderia o voo de retorno para Curitiba. Ele de certa forma, me informava que São Paulo, “a cidade que não para”, ganhou este apelido em dias de sol e noites de lua. Quando chove, não é São Paulo que para. É o mundo!

Passo pelo detetor de metais após uma sinfonia de apitos com o cinto, o isqueiro, o celular, e até as meias com bordado e fio de ouro. Subo até o sexto e suntuoso andar, onde eu faria minha sutentação. Por humildade, resolvi chegar com meia hora de antecedência. Dividi o confortável e velho sofá com um veterano da advocacia. Formado em direito ainda na década de cinquenta, ele havia sido advogado, depois juiz, depois desembargador, e voltava para a advocacia ainda com a OAB onze mil e pouco de São Paulo. Um agradável papo fez as três horas de atraso para o início da sessão de julgamento. As pernas doiam tocando a alarme da consciência da minha idade. A irritação fugia aos olhos que miravam a porta que não se abria. Mas o simpático veterano fez com que o tempo passasse quase rápido.

Quando as portas se abriram, percebi feliz que o meu processo era o primeiro da pauta. Alegria que quebrava o dia difícil. Para minha surpresa,  foi invertida a ordem de julgamento dos processos, pois o relator do meu processo não havia chegado ainda. Passei ali mais uma hora e meia, esperando o ar de sua graça, enquanto ouvia a forma rápida e sonolenta com que dezenas de processos eram julgados. O sono que me abandonára durante a noite, agora vinha com força empurrar minhas pálpebras em direção ao chão. Quando entra o relator, feliz desperto, e de pronto, ao ser chamado o sétimo processo da da pauta, coloco-me em pé diante da tribuna. Com a palavra, fiz aquele que creio ter sido uma das minhas mais belas sustentações orais. Matéria técnica, citações de doutrinas interessantes, e a análise de jurisprudências foram colocadas com imensa clareza. O procurador, ainda que no polo contrário, percebe a procedência dos meus argumentos, e revendo seu parecer anterior, é pelo provimento do meu recurso. Com a palavra o relator, começa a leitura de um voto sucinto. Tão sucinto, que deixava de apreciar o mérito dos meus pedidos. O revisor percebe o problema, interrompe o voto, e adverte o relator de que não havia controvérsia quanto a procedência do que eu havia pedido. O relator não se emenda, de primeira, e o vogal lhe chama a atenção. Diz que a matéria não é uma faculdade do juiz, mas na realidade,  uma causa obrigatória de diminuição de pena. Pronto. O relator então diante da situação resolve mudar o voto, mas para isso, pede vistas do processo, e deverá proferir seu voto em alguma das próximas seções. Com os elogios dos desembargadores, saio sem o acórdão, mas com o consolo de um trabalho bem feito.

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III – O TÁXI, O TRÂNSITO E O LADRÃO DE CIRCO

Sorridente, saio do Tribunal de Justiça ao lado da amiga Amanda, que havia acompanhado a sessão de julgamento. Enquanto comento com ela sobre o mérito, com um aceno faço parar um táxi, e nele embarco rapidamente para buscar a mala no hotel. Sacando a mala da portaria, embarco no táxi rumo ao aeroporto de Guarulho, tratando o valor fechado.

Na saída do centro, uma carreata lenta se espreme nas vielas do centro, segundo o taxista, fugindo do engarrafamento. Mas como o valor era fechado, fiquei tranquilo. Percebendo que levaria cerca de duas horas e meia para chegar ao aeroporto, fiz uma proposta para o taxista. Dou-lhe mais dez, se você parar em um posto para que eu compre algumas cervejas e me permita fumar no seu carro. Ele pede vinte, ofereço quinze e ele aceita os vinte. Pronto. Agora, no banco de tras do táxi, tenho meu bar e meu tabaco, tenho minha lan house no meu celular com 3G mega power turbo.

A viagem promete ser mais tranquila. E assim é. Passando um calor insuportável no centro da cidade, fico feliz ao chegar à marginal pinheiros, quando começamos a empreender uma velocidade média de 40 km/h. Que bom. Estou indo bem. Agora posso abrir meia janela para algum vento refrescar o táxi sem ar condicionado. Exatamente. Tratei o preço mas não sabia que o ar do carro estava estragado. Mas agora, com a Marginal Tietê voando aos 40 km/h, estou bem tranquilo. Posto no facebook minha paixão pelo trânsito paulista. Posto algumas mensagens, algumas curtidas e postagens dos amigos, e tomando aquela cerveja geladinha, com tempo para avaliar, resolvo fazer minha declaração de amor à mulher amada. Resolvo então escrever ali todos os sentimentos que jamais confessei. E agora, já meio ancião, resolvo colocar um fim em minhas solteirices.

Em oito grandes e bem escritos parágrafos, estou pronto para enviar aquilo que quase é um pedido de casamento. Ali está o enviar, e estou a um simples clique de meu novo casamento. Uma mensagem chega antes disso, e tenho que desembaraçar meu desembarque em Curitiba, a carona, e tudo mais. Resolvo então conferir as passagens, o documento, o dinheiro para o táxi e com o celular estou postando a mensagem para os amigos do retorno. Repentinamente, com uma habilidade circense, um motoqueiro emparelha em minha janela e consegue retirar meu celular e o dinheiro que tenho na mão, e mesmo com o táxi em movimento, ao ver meus documentos caírem sobre meu colo, tenta arrancá-los também. Tenho a oportunidade de segurar seu braço, mas quando percebo que vou derrubá-lo sob o rodado do caminhão, instintivamente soltei. Lá se vão meus honorários, minha reserva de dinheiro para o carnaval, meu celular, com a agenda do telefone de todos meus contatos de clientes e amigos, e o pior de tudo. Aquele pedido de casamento que eu iria fazer, desta vez sóbrio.

O taxista tenta ainda manobrar o carro para derrubar o “ladrão saltimbanco do Cirque du Soleil” – deveria ele tentar a sorte por lá, costura o trânsito com minhas belas palavras. De pronto, e para acalmar o indignado taxista, manifesto minha resignação, e com isso, consigo acalmar o taxista que já ameaçava fazer loucuras no trânsito para seguir o ladrão. Com a calma restaurada, confiro os trocados que havia guardado no outro bolso. Ao menos tenho o suficiente para pagar o táxi e comer alguma coisa no aeroporto.  Curitiba me aguarde. Estou de retorno da cidade que não para. Aliás, nem o ladrão para para assaltar você dentro do taxi. A cidade é tão veloz que o assalto se dá em movimento mesmo.

IV – O AEROPORTO, O ATENDIMENTO ESPECIAL, E O RETORNO

Chego ao aeroporto, e o taxista atenciosamente me deixa na frente de um balcão da Gol com um luminoso dizendo ATENDIMENTO ESPECIAL. Vou até ele e comunico o assalto. Ao comunicar o assalto, o atendente diz que uma vez ele foi assaltado assim também, e sem falar mais nada, fica me olhando. Pergunto a ele se posso usar o telefone e ele diz que não. Pergunto a ele se posso usar a internet, e ele diz que não, somente aquela paga no segundo andar.

Resolvo ir à delegacia do próprio aeroporto, mas sou comunicado que a Delegada está na pista recebendo um deputado. Devo retornar em duas horas. Vou então à Lan House e agência da Vivo. Descubro que ali não consigo cancelar minha linha. Somente através do 0800. Ligo, e fico a ouvir a música do capeta sem qualquer atendimento. Lembro-me de que o larápio circense levou o celular com o facebook aberto, e preciso urgentemente mudar a senha. A atendente me comunica que a hora de utilização custa a bagatela de R$ 25 por hora. Assalatado novamente, sento-me perante uma máquina que deveria ser um Pentiun 386, levo quinze minutos para abrir o facebook, mais meia hora para mudar a senha. De mãos erguidas, entrego o dinheiro para a atendente. Volto a delegacia, registro a ocorrência, e aliás, sob um atendimento finalmente solidário e atencioso. Quase peço ao escrivão apra usar a internet e acabar de mudar minhas senhas, mas percebo que isso seria um abuso.

Desço então ao primeiro andar, e percebo que o estômago agora precisa ser ouvido. Começo a transitar entre os restaurantes. A cada vez que eu recebia o menu e olhava os preços, instintivamente eu levantava os braços. Seria outro assalto, mas dessas vez, estes meliantes de restaurantes não tinham mais nada pra levar. Resta-me então a opção mais viável. Na lanchonete Viena, dois canecos de chop de 500 ml. Eles matariam a minha fome, e ainda serviriam de calmante.

De forma perfeitamente cronometrada, dou o último gole do segundo caneco justamente na hora em que o meu voo é chamado.

Que alegria. Agora vou embarcar neste avião e dentre de menos de uma hora, estarei em minha amada Curitiba. Carregando a mala sob os empurrões, chego a poltrona 10B. Claro. Você não acha que depois de um dia desses eu pegaria a janela da confortável  primeira fila. Sento-me e espero meus companheiros de viagem. Penso que depois de tudo isso, mereço a companhia de uma simpática e sorridente loira de braços macios e papo bom. Os passageiros vão chegando, e o avião vai ficando lotado. O passageiro da minha esquerda, um simpático engenheiro que viu parte de minha odisséia na delegacia. Com a poltrona da minha direita vazia, “espero com esperança” a chegada da bela loira. Para encerrar meu dia com chave de ouro, peço que o leitor tente advinhar quem chega na poltrona ao lado.

Advinhou?

O gordo do café da manhã!

Claro que não. Se fosse, eu teria cortado os pulsos e não escreveria esta crônica.

Um grande abraço a todos, e vamos aguardar a Copa do Mundo. Tudo vai melhorar neste país, só que não!

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ESQUINAS, A PRESSA E A COLISÃO EM UM MUNDO LOUCO

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Vivemos um tempo diferente. Não existe mais a ideia de família, de valores, de limites, de honestidade. No lugar disso, surge um mundo apressado, e ensimesmado, correndo como louco atrás dos prazeres, da satisfação imediata, do “eu quero ser feliz e pronto”. Neste mundo louco, as pessoas correm pelas ruas e se esquecem de que existem esquinas. Com a pressa, o acidente é certo. É inevitável que no mundo acelerado, as pessoas que cruzam os sinais colidam com alguém que corre em outra direção. E é natural que as direções sejam diferentes, pois não há uma pessoa igual a outra.

 

( (  ( ( ( ( ( 1 0 0 2 2 1 7 0 0 0 3 0 7 0 2Mas em um mundo tão mudado, grupos assumem uma certa direção, pela religião, pela ideologia política, por uma visão social ou questão profissional, colidindo a cada instante, uns com os outros, e perdendo a noção de coletividade, tornando inviável a própria noção da urbe. E é claro que se as direções são diferentes, e cada grupo justifica-se em sua pressa, cada um pensa estar na preferencial, imaginando-se titular da razão, legítimo detentor do direito de acelerar, de ultrapassar, de não parar. A cada choque, um novo litígio se forma, e mais e mais os grupos vão encontrando diferenças, passando a não mais serem grupos ou pessoas distintas, diferentes, passando a agir como rivais. E entre os rivais, a hostilidade é a regra. Se antes o choque era um acidente de percurso, entre rivais, ele não precisa ser mais evitado.

 

E assim se acumulam os corpos nas esquinas, vertendo sofrimento, tristeza, manchados pelas desavenças, pela tristeza, pela satisfação inalcançável.

 

( (  ( ( ( ( ( 1 0 0 2 2 1 7 0 0 0 3 0 7 0 3Mas dentre estes grupos, as maiores diferenças de direção ocorrem justamente entre as gerações. Enquanto uma percebe que o mundo mudou, que todos seguem para leste, quando no seu entender o certo seria o norte, outra segue para o oeste, querendo mudar o mundo, pois o certo mesmo seria o sul. Está formado o quadro perfeito do acidente. E eles acontecem em todas as esquinas, de todas as formas, de abalroamentos a colisões frontais.

 

Mas há solução? Se tantos assumem direções diferentes, é possível encontrarmos uma forma destas pessoas se movimentarem sem que colidam de forma tão catastrófica? A história nos responde, e a solução foi

 

Mas há solução? Se tantos assumem direções diferentes, é possível encontrarmos uma forma destas pessoas se movimentarem  sem que colidam de forma tão catastrófica? A história nos responde, e a solução foi encontrada.

 

( (  ( ( ( ( ( 1 0 0 2 2 1 7 0 0 0 3 0 7 0 4É necessário respeitar os sinais, respeitar regras, manter a atenção, e principalmente, não se permitir ceder a brutalidade deste trânsito. Em um determinado momento, onde não há preferencial, a regra básica de que vem da direita pode ser a solução. Mas mais que a regra, surge a oportunidade para a gentileza, para se tentar ser melhor, estender a mão e dar passagem. E a nossa pressa? Quem sabe o outro tenha ainda mais pressa, esteja mais atrasado, precise acelerar mais.

 

Mas além das regras das esquinas, existem outros limites, os limites da velocidade, que parecem não fazer sentido, mas que nos cruzamentos passam a ser de fácil compreensão. Ao se obedecer os limites de velocidade no meio da quadra, podemos estar evitando o choque fatal na próxima esquina. Estas placas de velocidade no meio da quadra, aparentemente sem razão de ser, questionáveis prima facie, justificam-se perfeitamente nas esquinas, onde haverá apenas um sinal, uma placa de pare, ou nada, mas um cruzamento, pelo qual haverá de passar tão acelerado quanto você, alguém que segue em outra direção.

 

Desacelere, conduza-se em suas direções com cuidado, obedeça os sinais, observe os limites de velocidade, troque de direção, ou até mesmo volte se necessário, mas não deixe de observar as regras. Elas não existem para te impedir de chegar ao seu objetivo, apenas pretendem garantir que você chegue lá bem, com o mínimo de acidentes possível, e sem deixar nenhum ferido pelo caminho.

 

Desacelere, e chegue bem.

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