( (  ( ( ( 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 6 1 0 0 0 6

E este incômodo mês, que me faz correr atrás dos presentes que não consigo dar, que me coloca na balança sobre minhas conquistas e as perdas ao longo do ano, que me obriga a tentar fazer em quinze dias o que não conseguimos fazer nos trinta dias dos outros meses, esse mês cruel, que ano após ano, me coloca mais velho. Ele chegou.

 

Implacável ele me traz outros tons de cinza para os cabelos que não ajudam mais, outras tantas rugas de expressão, e aumenta as formas da barriga que não tive em minha juventude. Impetuoso, ele me mostra que já não tenho mais o mesmo fôlego de outrora. Não tenho mais a leveza para subir escadas, nem a disposição para longas caminhadas. Mas a idade que me dissuade da ideia de visitar as trilhas longas que percorri, me convida a percorrer as trilhas do pensamento. E pensando, como se quisesse zombar de Dezembro, eu sorrio espontaneamente.

 

Encontro conforto na ideia de envelhecer. Deixo de ter a obrigação com a juventude. Não sou mais obrigado a viver as minhas aventuras tolas. Hoje eu posso me dispensar de algumas bobagens. Não tenho que me sujeitar aos sonhos juvenis que me entorpeceram os passos. Posso lidar como artesão com a realidade do que tenho às mãos, e saber que já tive diamantes sob meus pés. Ainda que a realidade nem sempre seja a mais desejada, estou livre dos sofrimentos da ilusão. Hoje me percebo um senhor de 46 anos.

 

Exatamente isso. São 46 anos e estou feliz por isso. Busco neste número um sentido para minha comemoração. Tento encontrar algum jogo de palavras, uma trocadilho, ou um símbolo. Percorro todos os outros anos e não encontro nenhum sentido especial. Mas como a idade me desobriga, quando estou prestes a desistir, surge algo interessante.

 

São 46 anos sim.

E são 46 os cromossomos do ser humano.

Tenho 46 anos e 46 cromossomos.

Sou humano.

E posso dizer que nesta minha vida, era justamente o que eu tentava ser a cada momento, a cada tropeço, a cada vitória. Uma oração erguida toda noite para que um dia eu me encontrasse humano, realmente humano, no sentido mais valioso que isso pudesse ter.

 

Tenho 46 anos, e 46 cromossomos.

Nasci humano no aspecto biológico. Fui talhado pelas mãos firmes da educação de meus pais para transformar-me em um humano no sentido exato da palavra. Tropecei, errei, caí, sofri e fiz sofrer. A forja do meu ser humano, ao logo do tempo incandescia no fogo dos meus sentimentos e tantas vezes era resfriada pelas lágrimas da desilusão. Na forja do que meu querer ser humano, a têmpera veio pelas palavras ácidas que ouvi e que tantas vezes repeti. A compactação do metal no peito, foi forjada pelos impactos com a realidade, da qual o homem não pode correr, e tantas vezes, será obrigado a bater de frente.

 

E hoje, forjado ao longo destes 46 anos, e justamente com estes meus 46 cromossomos, eu me tenho em conta de um bom homem…

… de um SER HUMANO!

DEVOLVE A ESPOSA E AINDA COLOCA UM ESCORT 91 NO NEGÓCIO

O CÉU PELO MAR …

 

SETE PARTES EM DEZ SÃO ÁGUA

Eu tentei ser sólido. Queria a impavidez dos monumentos, e a certeza absoluta do lugar que ocupo. Mas me perdi e me encontrei. Resolvi então me confessar setenta por cento água, e dela me inspirei para ser fluído. Aceitar o destino sem hesitar. Passar pelo leito da vida sem perder a arte que me foi caprichosamente pintada em telas à margem. Eu me confessei água, amante do mar, embora tenha aprendido como ancião a colocar os pés na areia.

Eu tentei ser sólido. Queria ser a força do tato, e o limite dos dedos que ousam alcançar. Mas me desacertei e me corrigi. Decidi então me confessar líquido, e do líquido me inspirei para ser livre. Aceitei meus limites com a serenidade dos lagos, que esperam a próxima torrente para transbordar as margens, quebrar as regras, e me espalhar. Tenho nas profundezas das águas os meus segredos que não haverá de conhecer a mulher que não aceite perder o fôlego. Eu me fiz úmido, nas lágrimas que engoli na minha opção de ser homem e sustentar em minha superfície o orgulho de o ser.

Eu tentei ser sólido. Queria a eternidade da pedra, e poder contundente do peso. Mas me desviei e realinhei. Percebi então que amo a eternidade do líquido, que evapora, sobe ao céu, e retorna ao chão para existir novamente. A eternidade humilde de se desfazer no ar para tornar a existir. Encontrar na ausência a inspiração para esperar, aguardar as monções como fazem os que vivem na seca por oito meses. E eu desapareço então em minhas palavras, em minhas fraquezas, e sigo com o vento que inaugura um novo aprendizado, novas ideias, uma nova maneira de lidar com minhas imperfeições e a minha falta de controle com as coisas do destino.

Eu realmente queria ser sólido. Queria que os olhos que me acertam pasmassem diante de minha inusitada criação. Encontrei-me mesmo então, foi escorrendo, neste momento com mais força, levando no peito o que eu tanto queria e admirava, deixando aos cantos o resto do que não me agrada. E me confessei água. Decepcionei a mulher que me queria eternamente eu, para ousar tentar a cada momento, buscar a mim, renovar as justificativas de minha existência.  Busco agora aceitar o inenarrável poder da água de ocupar qualquer espaço, de qualquer forma, e ali se acomodar, até virar vapor. Navegar em si mesmo rumo ao meu incontrolável e inevitável destino de voltar ao mar, de onde vim, e para onde irei, no colo da chuva, com a calma do tempo. Inevitável e inesgotável mar. Meu princípio e meu fim.

JUCA, O SÁBADO DE SOL E A NOIVA INCIDENTAL

Riad Bark. Músico e proprietário do Ponto Final também ‘;e dono de uns dos maiores repetórios de MPB de todo o Brasil.

Juca, protagonista de tantas histórias … Passou a semana preparando-se para ir à Ilha do Mel. Havia ele se programado de tal forma, que com certeza o seu final de semana sob o céu azul da ilha seria absolutamente inesquecível. Mas Juca nunca foi muito organizado. Ao ver os documentos de seu carrinho, percebeu que eles estavam vencidos há três anos. Um pequeno deslize de Juca.

Mas Juca não desiste tão fácil. Munido de seu telefone pré-pago começou a ligar para os amigos que tinham o destino de Pontal do Sul. Não precisou de mais que cinquenta ligações e cerca de cinquenta reais em crédito, Juca conseguiu carona com seu amigo Bicudo, que sairia sexta as 18:01, quando tocasse a sirene da usina de reciclagem. Assim Juca dobrou as melhores três camisetas, as duas bermudas, uma cueca e nenhum protetor solar, pois Juca sempre achou que esse negócio de bloqueador solar é coisa pra viado.

Sexta, quando já passava das 20 horas, e Juca ainda esperava no portão de sua casa, Bicudo ligou informando que foi tomado de um mal súbito, mais conhecido como piriri, ou churril mesmo. A descida tinha ficado para sábado pela manhã. E lá se foi a noite de sexta na ilha. Indignado, pois havia lavado as havaianas com todo cuidado, Juca resolveu sair e beber o ódio, se vingar do revés. Lembrou-se das amigas baianas que estavam na cidade para lhe visitar. Foi ele então ao Bossa Nova e após uma hora de fila, resolveu abortar a missão. Buscou o sossego do bom e velho Ponto Final, onde empilhou garrafas de cerveja ouvindo a melhor MPB de Curitiba.

Juca resolveu encurtar a noite, pois queria estar disposto para a ilha no sábado. Chegou em casa por volta das duas da madrugada, porém, não conseguiu dormir. A manhã de sábado chegou devagar, e por volta das 10 da manhã, sem notícias de Bicudo, resolveu ligar pra ele. O telefone do amigo estava fora de área. E assim foi até o meio dia, quando Bicudo ligou. O amigo então deu a pior notícia que Juca poderia esperar. Ele havia passado mal a noite toda, e não tinha a menor condição de pensar em ir à praia. Nenhuma sunga de homem sério seria capaz de encobrir uma fralda geriátrica.

Juca então se irritou, pensou em chorar, mas desistiu por vergonha. Ele pensou o que deveria fazer, e num passe de mágica, o telefone tocou. Ao telefone, Paula e Taís, as baianas, estavam o convidando para ir ao Folha Seca, bater uma bela e tradicional feijoada. Juca, lembrando dos belos olhos baianos das amigas, resolveu então beber o ódio, vingar-se do revés, afogar a desventura. E lá se foi Juca ocupar uma cadeira ao lado da boa turma.

Com o papo correndo solto e leve, Juca nem viu as horas passarem, e nem passou no beiço o caldo da feijoada. Não comeu nada.  As horas voaram, e sem que se pudesse perceber como ou porque, alguém havia convidado Juca para ir ao Vox. O lugar nunca atraiu Juca, mas as pernas das amigas baianas bem que lhe interessavam. A turma toda daria seguimento ao feito na balada. Conscientes , como não é a virtude de Juca, os amigos foram se dirigindo para as suas casas, deixando para trás apenas os dois incautos. Juca e Rafael. Os melhores amigos do copo que lhe aliviam o peso. Íntimos da garrafa que tão fácil lhe esvaziam. Resolveram ir para casa quando o relógio já gritava 21 horas.

Quando Juca foi deixado em casa por Rafael, Daniele já se encontrava o esperando para continuar a festa. Juca não teve tempo de acabar com a pizza que havia congelado, nem com o frango a passarinho que sua avó havia feito. Tomou um banho de cinco minutos, mas lavou entre os dedos do pé, e embarcou no carro de Dani. No caminho, um energético parecia ser a solução para trazer o seu prumo mais quinze graus para a direita. Tomou e não deu certo. Ao contrário do que  ele esperava, o maldito líquido cafeinado não lhe endireitou o prumo, e de fato, ele ficou mais acelerado e sim perdeu a noção do prumo.

Quando as luzes do Vox se apagaram e todos começaram a dançar, Juca percebeu que estava se dando bem. Uma mocinha, belos olhos cor de mel, cabelos loiros, e corpo escultural, estava lhe dispensando especial atenção. Juca podia sentir o gosto do sucesso, e já pensava em ligar para Bicudo para contar da virada do jogo. Quando tudo parecia estar dando certo para Juca e ele quase imaginava um romance de dez anos com a loirinha, percebe ele que aqueles belos olhinhos já cuidavam de paquerar outro rapazote. O tipo bonitão, fortão, bem sucedido e culto, um páreo difícil para quem estava com o prumo torto.

Juca pode ser desorganizado, mas é um grande estrategista. Uma pena que nem sempre grandes estratégias culminem com grandes sucessos. Colocando sua cabeça tonta pra pensar, ele percebeu que deveria levar a batalha para o seu campo. Era hora dele transferir a festa para o Ponto Final, onde Juca é rei, amigo de Juarez, tem o telefone do Riad, e sempre é cumprimentado pela sorridente Marlene. Após alguma hesitação, a loirinha aceitou o convite. A Batalha agora se transferia para os campos que tão bem o general Juca conhecia. Lá, não haveria como perder.

Chegando ao Ponto Final, Juca logo mostrou para a loira que conhecia todo mundo, e que era de certa forma uma celebridade no pequeno bar de paredes verdes. A estratégia até parecia dar certo, mas o General dos Olhos de Mel não cedia. Guardava suas linhas, protegia os flancos, e sempre que ameaçado, disparava seus canhões afastando as investidas da tropa de Juca.

Juca então foi ao fumódromo, onde conhece todos, e sabe bem desenvolver sua conversa permeada pelas melhores piadas da Tribuna. A loira não ficou muito tempo do lado de fora. O General dos Cabelos Louros, parecia ter as defesas perfeitas. Juca então encontra seu amigo Piuí. Percebendo que Juca balançava todas a vezes que falava a letra “erre”, e soluçava a cada três “as”pronunciados, Piuí aconselhou Juca a abandonar a batalha. Era hora de um bom general depor as armas, e assinar um belo termo de rendição. Juca, que já dançava a música imaginária, ficou ali ouvindo os conselhos de Piuí. Mas para cada conselho, eram três os copos de cerveja que Juca arremessava contra o seu prumo. Agora, já pendia quase quarenta graus para a esquerda.

Mas há duas verdades no bar, que Juca viria a confirmar. A primeira?  A bebida sublima o íntimo da personalidade de cada um. O bêbado que tem tendência violenta arruma briga. Quem tem tendência depressiva chora. Quem pensa demais na vida vira filósofo. E Juca? Ah pobre Juca. O mais romântico dentre os românticos.

A segunda verdade, é que nunca, jamais, em hipótese alguma, sob nenhum pretexto, nem que a vaca tussa, nem …., qualquer pessoa pode desafiar um bêbado. Piuí não se atentou à segunda regra, e pouco sabia desse lado romântico de Juca. Com a intenção de fazer Juca esquecer do General de Corpo Escultural, Piuí fez os olhos duplicadores de Juca olharem para Priscilla. Quando Juca se deu conta da beleza de Priscila, ele a duplicou. Ao ver a flor que Priscilla trazia no cabelo, Juca se viu em frente ao jardim da mais rara beleza. Ao perceber tão formosa mulher, Juca quase se aprumou por três segundos. Mas Piuí cometeu a maior heresia que se pode cometer com um amigo bêbado. Piuí disse: “Era uma mulher daquela que você deveria casar. Duvido que você tenha coragem de pedir aquela mulher em casamento. Você não é homem pra pedir ela em casamento!” E o silêncio tomou conta do fumódromo por dois minutos. Juca ficou pensando.

Juca, tomado por toda a coragem que a Ambev engarrafa em uma hora, colocou-se a andar em direção à Priscilla. Foi prontamente seguido por uma comitiva que já ria do estado de Juca, ele entrou no bar quase que na direção exata. Conseguiu corrigir o rumo, balançou um pouco, mas chegou até Priscilla. Na frente dela, colocou-se de joelhos e disse: “Eu estou bêbado, mas não estou errado. Casa comigo mulher?” Juca nem percebeu que estava ao lado do general de defesas intransponíveis.

E para a surpresa de todos,  aquela flor de mulher, aquela perfeição de curvas, cores e cheiros, simplesmente resolveu responder: “Sim! Eu aceito!” Inacreditável. Após um tempo em que os membros da comitiva silenciosa tentavam acreditar, todos começaram uma grande festa. Então voltaram com os noivos para o fumódromo, onde Juca se colocou de joelhos mais tantas vezes à frente de Priscilla. As máquinas fotográficas e celulares não davam trégua para os flashes. Juca estava feliz demais. Alguns até disseram ter visto a noiva derramar algumas lágrimas. O cunhado de Priscilla, voluntarioso, logo se propôs a organizar o churrasco no domingo, onde Juca oficializaria o pedido aos pais de Prisicilla. Juca aceitou prontamente e se dispôs a renovar o pedido na frente dos futuros sogros.

Quando eram quatro horas e a madrugada já dava seus últimos suspiros, a noiva ajuizada resolveu se recolher. Despediram-se e seguiu ela na companhia de sua irmã e seu cunhado rumo ao lar feliz. Juca, também feliz, resolveu dar prosseguimento ao feito e comemorar o projeto de casório. Depois de reclamar com o dono do bar a inexistência de uma champanhe que atendesse aos noivos, voltou para a cerveja que nem lhe era muito bem vinda. Foi assim até as sete horas da manhã, quando Gilney, amigo de verdade de Juca, conseguiu convencer-lhe a ir para casa. Assim foi, sem que Juca esquecesse de se munir da última garrafinha da maldita cerveja.

Enquanto bebia a última cerveja, Gilney falou a Juca: “Rapaz. Você está feio! Que porrete heim? Mas tenho que te dizer uma coisa. Você até perdeu o bom senso, mas o bom gosto não. A mulher é linda demais! Como é que você conseguiu achar ela? Você está enxergando bem ou foi sorte?”

Juca respondeu: “Eu só enxergo duas de cada. E eu sou bêbado mas não sou idiota. Então é fácil. Assim, por exemplo. Eu sei que aquelas duas são bonitas e aquelas outras duas não. Entendeu?” Com essa chave de ouro Gilney decretou o encerramento da noite, e conduziu Juca para o seu lar. Deixou Juca no portão, e ele entrou cambaleante se apoiando no carro que ajuizadamente tinha deixado em casa.

Ás onze horas da manhã do domingo, Juca é despertado por um telefonema de número não identificado. Ao atender, a surpresa. Era o cunhado de Juca. Do outro lado vem a chamada: “Seu Filha da Puta! Está todo mundo aqui te esperando e você não vem?” Juca despertou com a cabeça tonta. Sem saber o que dizer, se é que há algo que se possa dizer num momento desses, desligou rapidamente o celular. Ficou ali perplexo e perambulando pelo quarto, Juca começou a repassar os acontecimentos do dia anterior. Quando Juca se deu conta de que estava noivo, o estômago embrulhou, as mãos começaram a suar, e as pernas bambearam. Juca foi obrigado a abraçar a patente e devolver a cevada que havia acumulado.

Voltou pra cama, mas o sono não voltou para Juca. Enquanto repassava os flashes da noite romântica, ele apenas pensava: “Meu Deus. O que vou fazer agora?” Sem que a resposta aparecesse, Juca não viu as horas passarem, e quando já eram quase duas horas da tarde, Juca ouviu o telefone tocar. Tremendo, olhou para o display que anunciava “número não identificado”. E agora? Com a voz embargada Juca atendeu. Do outro lado da linha, Juca ouviu uma voz doce e compreensiva dizendo assim: “Amor, você está bem? Você não vem? O que aconteceu? Não está passando bem amor?” Juca percebeu ali uma grande saída, e resolveu usar essa tática, pedindo que ela avisasse os pais e a família que ele estava com uma indisposição estomacal. Ela atendeu ao pedido, apenas solicitando a Juca que ao final da tarde, passasse lá apenas para ser apresentado aos pais dela.

Juca desligou o telefone sentindo-se o ser mais desprezível da face da terra. Não era possível. Como ele poderia fazer uma coisa daquelas com tão doce criatura. Deitou-se novamente na cama e se pôs a olhar para o forro implorando para que a viga do teto lhe partisse a moleira. “Que ser infeliz, desprezível, baixo, rastejante, repugnante sou eu?”

As horas se passaram e Juca não as viu até o final do jogo de domingo, único momento em que ele conseguiu pensar em outra coisa. Quando seu time fez um gol, ele recebeu a terceira chamada do número misterioso. “Oi amor. Você melhor?” Juca então resolveu dar mais veracidade à sua história. Foi ao banheiro e em meio a sons de quem não quer mais nada no estômago, disse a ela que não teria condições de comparecer ao próprio noivado. Pediu desculpas e pediu que ela explicasse tudo aos parentes. Ela, compreensiva e carinhosa, entendeu e aceitou a missão, porém, ofereceu-se para levar Juca ao hospital. Juca viu a saída ideal para a proposta. “Amor eu não quero que você me veja nesse estado. Deixei que eu resolvo isso por aqui.”

O telefonema encerrou com palavras de carinho, apoio e compreensão. Priscilla era mesmo a mais doce das criaturas, e ainda tinha a imagem da mais bela das orquídeas.  Juca se pôs a se criticar. Tinha a vontade de ligar para ela e contar tudo. Mas como ele poderia dizer para tão doce criatura, que havia pedido ela em casamento porque estava bêbado? Isso acabaria com a autoestima da mais segura das mulheres. Imagina Priscilla, a doce. Durante o resto do dia e a noite toda ficou pensando no que faria. Criado nos mais altos padrões de honra, Juca então ao final da madrugada de segunda-feira decidiu que iria dar efeito ao pedido. Agora, já que tinha feito tal canalhice, teria ele que se redimir levando aquela linda criatura ao altar.

Na segunda-feira o telefone não tocou. Ele não tinha o telefone de Priscilla, pois seu Motorola havia feito o favor de dispensar a agenda. Ele passou a procurar a menina no Orkut, Facebook, Twiter, e em todas as outras baboseiras sociais que existe. Cadastrou-se até no Par Perfeito para dar um jeito de encontrar a mocinha. E nada. Assim foi também na terça, quarta, quinta, até que sexta, Juca se colocou em belos trajes e voltou ao local do crime. Chegando lá, perguntou à Marlene se ela tinha o telefone da noiva. Perguntou a tantos outros, mas ninguém tinha. E Juca, esse cafajeste arrependido, o noivo furão, colocou-se a tomar todas as cervejas que podia.

Quando eram quase três horas da manhã, o bar parou, a música silenciou, e tudo ficou em câmera lenta. Priscilla, a mais bela entre todas, entrou no bar sorrindo, e foi até Juca. “Oi. Tudo bem? Melhorou?

Juca então disse: “Sim amor. Estou melhor. Desculpe por não ter ido no domingo. Eu estava muito mal”

Ela respondeu: “O que teve domingo? Não estou sabendo? Você passou mal?”

Juca não entendeu a resposta. O Cunhado também não entendeu, e muito menos Priscilla. Ela então lhe disse: “Ora Juca. Eu não levei a sério. Capaz que eu ia levar a sério um pedido de casamento de um pudim de cachaça no meio de um bar.” Ela riu e o cunhado também.

Mas Juca, sem entender nada, perguntou se eles não ligaram para ele no domingo do noivado. Eles riram e disseram que logicamente não iriam ligar. Eles levaram o pedido de casamento na brincadeira como só poderia ser.

Juca ficou sem entender novamente: “Se vocês não me ligaram, quem foi que me ligou então? Eu recebi uma ligação do seu cunhado e duas suas no domingo, cobrando a minha presença no nosso noivado.”

“Mas que noivado? Nós não ligamos pra você seu louco. Pare com isso. Você acha que alguém aqui poderia levar seu pedido a sério?” Disseram quase uníssonos a ex-noiva e o cunhado.

Nesse momento, Juca repetiu a grande pergunta que surgiu avassaladora em sua cabeça: “Mas se vocês não me ligaram, quem foi que me ligou então?” Depois de um som afogado, um barulho estranho, uma tosse, e uma gargalhada, Juca viu Piuí se contorcendo em risos. Ele simplesmente não conseguia se controlar.

Quatro semanas depois, Piuí saiu do hospital, mas não tem ido mais no Ponto Final. Priscilla voltou ao seu doutorado no exterior. O cunhado confirmou que vai ser pai novamente. Gilney ainda é o melhor amigo de Juca. E Juca?

Juca parece que foi no último final de semana para a ilha, mas foi de ônibus, pois Bicudo ainda está com aquele piriri. Ao menos é o que se tem notícia.

UM DOMINGO ESPECIAL PRA VOCÊ

Hoje desejamos a você que encontre algum tempo de sobra, uma hora a mais, alguns minutos, ou mesmo até segundos. Que o tempo empreste a fluidez das águas que seguem tranquilas o rumo de seu destino.

Desejamos que você encontre esse bônus de vida, para reencontrar a beleza em provocantes simplicidades. Para que você possa desembaraçar a ideia de felicidade. Que você posso então entender a teoria simples da água e dos ventos.  Que no meio da grande festa, a música se faça presente no volume certo. Como uma onda que surge no tamanho exato do seu calor. Que a melodia possa ser ouvida tanto na voz que canta, quanto naquela que lhe fala. E que inrrompa do improvável a mais autêntica risada, gostosa e solta, como criança feliz. Tão mágico quanto o som do mar.

Que o almoço seja servido com os talheres certos, e um copo do tamanho de sua sêde. Que no banquete lhe acompanhem os entes queridos de sua família, os bons e verdadeiros amigos. E que eles fiquem para as conversar naturais que surgem depois do almoço de domingo. Que as coisas necessárias sejam ditas às claras. As menos agradáveis, sem rudeza, e as coisas que lhe façam sorrir, sejam ditas sem frieza. Que neste domingo, surja no ar o cheiro de festa, o clima de comemoração e congrassamento. Que assim se façam as horas, os minutos e até os segundos deste domingo no grande mar de emoções que é a vida.

E por qual razão valorizar até os segundos?  Neste oceano da vida, que não se perca a certeza da importância de cada gota. Uma delas, desconhecida, anônima e aparentemente insignificante, foi a primeira a se encher de energia e movimentar esse oceano para lhe trazer essa onda que lhe refresca. Some então as gotas. Inunde-se de vida.  Tenha tempo para molhar as mãos e refletir.

E se a terra é coberta com  70% de água, que as pessoas usem esses mesmo 70% de água que inundam nosso corpo, para serem realmente mais transparentes.  Que aprendam das águas que só se perde a transparência com as impurezas.

Que seja um domingo feliz, como feliz se faça a criança frente ao mar.

Um brinde ao seu domingo.

* Uma homenagem especial aos amigos aniversariantes deste 11 de dezembro.

“EU” CONTRA “EU” Victor Hugo

 

Quando o HOMEM, ainda jovem, desejou cometer o primeiro desatino, aproximou-se o Bom-Senso e observou-lhe: 
– Detém-te! Por que te confias assim ao mal?
O interpelado, porém, respondeu orgulhoso: 

– Eu quero.
Passando, mais adiante, à condição de perdulário e adotando a extravagância e a loucura por normas de viver, apareceu a Ponderação e aconselhou-o:

 

– Pára! Por que te consagras, desse modo, ao gasto inconsequente?

 

Ele, contudo, esclareceu, jactancioso:

 

Eu posso.

 

Mais, tarde, mobilizando os outros, a serviço da própria insensatez, recebeu a visita da Humildade, que lhe rogou piedosa:

 

Reflete! Por que não te compadeces dos mais fracos e dos mais ignorantes?

 

O infeliz, todavia, redargüiu, colérico:

 

– Eu mando.
Absorvendo imensos recursos, inutilmente, quando podia beneficiar a coletividade, abeirou-se dele o Amor e pediu:
– Modifica-te! Sê caridoso! Como podes reter o rio das oportunidades sem socorrer o campo das necessidades
alheias?
E o mísero informou:
– Eu ordeno.
Praticando atos condenáveis que o levaram ao pelourinho da desaprovação pública, a Justiça acercou-se dele a
recomendar:
– Não prossigas! Não te dói ferir tanta gente?
O infortunado, entretanto, acentuou implacável:

 

– Eu exijo.
E assim viveu o Homem, acreditando-se o centro do Universo, reclamando, oprimindo e dominando, sem ouvir as sugestões das virtudes que iluminam a Terra, até que um dia, a Morte o procurou e lhe impôs a entrega do corpo físico. O desditoso entendendo a gravidade do acontecimento, prosternou-se diante dela e considerou:
– Morte, por que me buscas?

 

–  Eu quero – disse ela.

 

– Por que me constranges a aceitar-te? gemeu triste.

 

– Eu posso – retrucou a visitante.

 

– Como podes atacar-me desse modo?

 

– Eu mando.

 

– Que poderes te movem?

 

– Eu ordeno.

 

– Defender-me-ei contra ti — clamou o Homem, desesperado — duelarei e receberás a minha maldição!…

 

Mas a Morte sorriu, imperturbável, e afirmou:

 

– Eu exijo.

 

E, na luta do “eu” contra “eu”, conduziu-o à casa da Verdade, para maiores lições.